SEMANÁRIO: Crise entre poderes. Glândula do macaco. O triunfo da fantasia. A fonte da fedentina.
CRISE ENTRE PODERES. Alexandre de Moraes anulou a decisão da Câmara dos Deputados que manteve o mandato da deputada federal Carla Zambelli. Concordo integralmente com os argumentos do Ministro neste caso; todavia, no precedente de 12/10/2017 – aquele que aliviou a barra do então senador Aécio Neves - o STF decidiu que o afastamento do mandato por decisão judicial necessitaria do aval do Legislativo; naquela oportunidade, Alexandre de Moraes não apenas concordou com a exigência do aval como defendeu a importância da imunidade parlamentar à proteção dos parlamentares “contra o abuso dos demais Poderes”; ora, a argumentação de 2017 soa contraditória à de 2025, e a circunstância do caso de Aécio envolver uma medida cautelar não impressiona, uma vez que o tema de fundo em ambos os precedentes é o afastamento do mandato, se provisório ou definitivo, tanto faz. Seja como for, a crise atual foi contratada lá atrás, em 2017, quando o STF cometeu o erro crasso de renunciar a uma ferramenta relevante ao manuseio dos freios e contrapesos, resultando, pois, num poder enfraquecido. GLÂNDULA DO MACACO. Robert Sapolsky comentou sobre uma terapia destinada ao rejuvenescimento masculino, assaz popular no início do século XX, em que uma das técnicas envolvia injetar, no ânus dos pacientes, soluções salinas contendo testosterona extraída de testículos de macacos, ideia absolutamente inútil cujo prestígio é atribuído ao conhecido efeito placebo. Cem anos depois, durante a pandemia da Covid-19, políticos brasileiros de grande popularidade defendiam o uso de uma terapia semelhante: injetar no ânus dos interessados uma certa quantidade de ozônio gaseificado (insuflação retal de ozônio), ideia cuja eficácia, ao menos à finalidade declarada, era nula. O recorrente fetiche dos charlatães pelas cavidades humanas é de uma ironia autoexplicativa; o que ajuda a esclarecer o porquê de o Governo Lula ter autorizado a ozonioterapia como tratamento complementar, contrariando pareceres oficiais de entidades médicas atestando a ausência de cientificidade de tal procedimento. O TRIUNFO DA FANTASIA. Conferindo os resultados do Censo do Sexo de 2022, conduzido pela Pantynova, vemos que 66% das mulheres afirmaram encontrar o orgasmo quando o procuram sozinhas; quando acompanhadas de seus parceiros, esse percentual cai para 19%. Com os homens, o resultado fica em 86% e 54%, respectivamente. Ainda que a diferença entre a realidade orgástica feminina e masculina mereça aprofundamentos, tudo leva a crer que a fantasia supera a realidade em ambos os gêneros. A FONTE DA FEDENTINA. Há algo de podre no reino da trumpilândia: os juros de 10 anos seguem altos, o dólar segue assaz desvalorizado frente ao euro e as expectativas flutuam na incerteza. Os artigos de Paul Krugman nos ajudam a entender a razão de toda essa fedentina.