TABUÍSMO. "Braço forte, mão amiga" é o lema do Exército Brasileiro. No tabuísmo tupiniquim, confirmado pelo Dicionário Informal, mão amiga significa o “ato comum entre adolescentes do mesmo sexo de masturbar-se um ao outro”. CAPITALISMO SÉRIO. A crise do banco Master é um lembrete cabal àqueles que defendem a desregulamentação do mercado financeiro. O capitalismo não é um sistema asseado, ao contrário, recebe sujeira de todo o lado (dumping, cartel, pirâmide, monopólio, maquiagem, fraude, marketing abusivo, práticas predatórias). O que não falta é picareta na Faria Lima. Confiança pressupõe fiscalização tanto quanto liberdade pressupõe responsabilidade. Quem defende a desregulamentação do mercado financeiro é a favor da impunidade e não da liberdade. ASTROLOGIA. A astrologia representa uma das formas mais antigas de charlatanismo ainda em vigor. É o que penso. Mas posso estar errado. Há quem defenda que seja uma verdadeira ciência natural. Se for esse o caso, a inteligência artificial será capaz de fazer mapas astrais mais confiáveis do que os dos astrólogos. BOLSONARO. Tudo o que Bolsonaro queria era reinar sobre os brasileiros. Pois agora está a reinar: a reinar como criança birrenta face ao castigo. Viu-se condenado pela tentativa de golpe; não fosse a falência de nossas instituições, sê-lo-ia também pelas mortes que induziu na pandemia. Então teríamos justiça.
Um nome cuja fama o precede, acompanhado de um título sugestivo: é o que basta para despertar nos leitores toda sorte de expectativa. Quem, todavia, se der ao luxo de ler Nicoleta Ninfeta, de Cassandra Rios, há de ver frustradas muitas de suas fantasias. Cassandra Rios chegou a ser a autora mais lida no Brasil, mas a censura imposta à sua obra - notadamente durante o regime militar (haja demagogia para atenuar tamanha carranca) - por pouco não a levou à falência. Hoje, seus livros são difíceis de encontrar mesmo nos melhores alfarrábios: daí por que ser um luxo ler Cassandra Rios nos dias atuais. Jorge Amado confessou, em seu livro de memórias, ter articulado para que Cassandra fosse indicada à Academia Brasileira de Letras; a vaga, porém, ficou com Rachel de Queiroz. Dada tal recomendação, fiz chegar às minhas mãos Nicoleta Ninfeta, título que faz jus à fama de Cassandra, mas não pelas razões que sua capa sugere. Das esperadas, ou desejadas, sequências ardentes, há apenas uma, esmagada ao fim da narrativa como que para justificar a tradição; no mais, temos a história de uma jovem senhora que, durante sua jornada em busca do amor, experimenta o conflito entre a ilusão romântica e a realidade nua: o desejo de investir em um novo amor face aos traumas de relacionamentos passados, de empreender no mercado editorial face à onipresença dos grupos dominantes, de convidar a namorada para sair face à falta de dinheiro para pagar o jantar, tudo envolto em referências filosóficas e insights perspicazes (“E a gente continua depois de muito amar sem saber exatamente o que é o amor”). Em romances breves, assim como nos contos, os detalhes assumem particular relevância, as descrições são resumidas, quando não suprimidas, e a psicologia dos personagens surge indefinida, as mais das vezes sugerida, tal como um desenho rascunhado apressadamente; em Nicoleta Ninfeta, todavia, a narrativa nos permite traçar o perfil psicológico da protagonista (e também narradora) com razoável acuidade: trata-se de uma mulher de meia-idade, lésbica, intelectualizada, segura, decidida, discreta, um tanto impulsiva e possessiva, que valoriza sua independência (emocional inclusive) e gosta de exercer uma posição de dominância em relação às parceiras. Certas características de sua personalidade lembram o modo de ser masculino (servir de provedora às suas companheiras por exemplo). Sua homossexualidade parece mediada pela vaidade intelectual, subentendida do contexto (“Nasço de um cérebro. O ventre que me fecundou foi receptáculo do amor. E na minha carne brotou a chama mais forte: a ideia. Sou pensamento, essa é a força, o resto é matéria que se move sob meu comando”), e o distanciamento das discussões acadêmicas lhe franqueia reflexões autênticas sobre si mesma como lésbica e sobre a comunidade gay como um todo (“A feminilidade não consiste no fato de a mulher ser uma heterossexual ou uma homossexual. Sou antifeminista. A mulher não precisa sair por aí empunhando estandartes para gritar seus direitos de igualdade junto ao homem. Mais vale a mulher que reconhece e aceita os conceitos estabelecidos pela diferença entre os dois sexos, e individualmente luta pelas suas condições para que estas se tornem mais favoráveis e consegue tudo por esforço próprio”). Das coadjuvantes, sobressai, naturalmente, a figura de Nicoleta, uma lésbica em formação, resolvida quanto à sua homossexualidade, mas suscetível às pressões da juventude - experimentação, autoafirmação e insegurança. A sensível dissonância etária assume o centro temático, não como conflito geracional propriamente dito (não se discute a evolução dos valores por exemplo), mas apresentando os efeitos práticos da influência do tempo sobre a visão de mundo de cada personagem (“Para não me tornar ridícula faço talvez como muitas outras, finjo que também sou de hoje”): a mais jovem, curiosa, a trabalhar com o presente; a mais velha, carente, a incluir no processo as experiências do passado. Resolvida a tensão sexual entre ambas, a realidade termina por se impor (“Às vezes a contingência nos obriga a um golpe decisivo, sem explicações e desculpas, sem esclarecimentos e sem transigir”): a vivência acumulada pela protagonista e sua densa intelectualidade não são suficientes para brecar seus impulsos emocionais, ao contrário, acabam por contaminar seu caráter ao lhe induzir uma confiança excessiva no jogo do amor (“A certeza de estar sendo amada, estupendamente amada, pela mais bela mulher que passara pela minha vida, em plena flor da juventude, dava-me uma segurança que me fazia sentir dona e senhora dela”), imprudência que a leva a colecionar seguidas frustrações (“A verdade era que, por mais que eu quisesse provar o sabor do amor, não conseguia amar ninguém, era tudo sexo, necessidade de companhia, horror à solidão”). Nicoleta Ninfeta bem serveria como romance de formação lésbico, uma vez que enfrenta pontos centrais desse tema: aceitação social, diferentes formas de expressão da homossexualidade e de filosofias de vida, pormenores pertinentes à comunidade gay e o predomínio da realidade frente às ideologias. Vejo que esse comentário caminha para superar o livro em extensão: eis o resultado quando nos damos a enfrentar um pequeno notável. Deixo-vos, pois, com uma última ruminação, uma especulação da protagonista acerca do amor: “Eu observando o amor que tomava conta de tudo. O amor que era uma impressão mística de encontro, de identificação, de saudade pela espera, de ansiedade pela procura, de êxtase pela reciprocidade”.