Meus Mortos
Calha, vez ou outra, de um artista antever mudanças sociológicas relevantes o suficiente para influenciar a cultura de seu tempo e a das gerações futuras. Ocorreu com Beethoven e Victor Hugo em relação ao fim do Classicismo. Ocorreu com Ticiano em relação ao fim do Renascimento. Ocorreram no passado e ocorrerão no futuro, acompanhando a evolução da espécie, ora para melhor, ora para pior, a depender do ponto de vista. Os tempos atuais têm dificultado a vida dos otimistas: eventuais conquistas pontuais não escondem o constrangimento de estarmos nós, os velhos, em vias de legar um mundo pior, atolado em toda sorte de lixo cultural, ambiental e econômico. Seguimos muito aquém de nossas expectativas, colecionando desperdícios, reciclando equívocos. Este é meu ponto de vista. Acredito que seja também o de Diogo Mainardi. Ao menos é o que se denota de Meus Mortos, livro através do qual Diogo busca expiar seu luto, declarado no próprio título, e o faz associando suas perdas particulares a uma espécie de consternação coletiva - o testemunho de uma geração que se despede da história de forma melancólica. Diogo vive em Veneza, terra de Ticiano, proximidade que lhe permitiu identificar pontos de contato entre a sua biografia e a do pintor, notadamente a visão pessimista do futuro e a reflexão nada piegas sobre a morte. Não há, todavia, espaço ao lúgubre, ao contrário, a narrativa é carregada de humor, um humor tranquilo, domado pela resignação, bem diferente das piadas de velório, nervosas, histéricas. Fazer chacota de nossas desventuras é um recurso terapêutico: não raras vezes os artistas buscam no humor um refúgio face às angústias da vida. Ricardo Araújo Pereira, em Coisa que não edifica nem destrói, diz que a vitória do humor é ser a admissão de uma derrota. Com efeito, o deboche e o escárnio são armas legítimas contra a estupidez triunfante; e neste sentido, Meus Mortos reduz à galhofa a cafonice de uma certa elite, zomba da ventura dos idiotas, desnuda o profano travestido de sagrado, resiste ao autoritarismo da morte e ao desfazimento de nossos dias apelando à vida e à obra de Ticiano, artista cuja longevidade lhe permitiu transicionar das cores do Renascimento ao obscurantismo da Contrarreforma, um dos primeiros a unir o grotesco ao sublime, algo que Victor Hugo viria a defender três séculos mais tarde. O livro de Diogo Mainardi exala melancolia. Razões não lhe devem faltar. Conhecido polemista, suas cáusticas opiniões políticas fizeram sucesso nos diferentes veículos em que trabalhou. Crítico implacável de Lula, festejou como poucos as condenações do Mensalão e os avanços da Operação Lava Jato, inquérito policial que desmontou o maior esquema de corrupção da história mundial, mas que, ao se aproximar de figuras proeminentes, acabou sabotado por um arranjo macabro entre os Poderes; sucedeu-se então uma surra, um verdadeiro linchamento institucional: inúmeros réus, a maioria confessos, tiveram seus processos anulados, agentes que participaram da investigação viram-se perseguidos, leis importantes ao combate à corrupção restaram relativizadas, jurisprudências casuísticas foram forjadas, a sensação de impunidade, e pior, de impotência, tomou conta da sociedade, enfim, uma degradação obstinada que persiste até hoje. Somado tudo isso ao triunfo do bolsonarismo, ao avanço da extrema-direita, à reabilitação do petismo e às aflições pessoais, o cenário tornou-se demasiadamente insalubre: nada mais restou a Diogo senão reconhecer a derrota e buscar resguardo na vida privada. Ocorre que, a par das decepções jornalísticas, Diogo é um talentoso escritor; daí por que seus fãs vibraram com a notícia de que ele estaria a trabalhar em um novo livro; eis que o cidadão lhes aplica então uma pegadinha: em vez de um romance tradicional, ele dá à luz uma fotonovela, o gênero mais vulgar de narrativa, segundo o próprio Diogo reconhece; uma resposta, talvez, à decadência geracional que ele acompanha com olhos cansados, enojados, decadência esta abraçada por uma sociedade anestesiada que, cambaleando entre escrotidões e fanatismos, aceita de bom grado políticos repugnantes, desses que não escondem sua ojeriza por livros que contenham muitas palavras. Quer algo mais afeito a uma geração iliterata do que uma fotonovela? Pois então, os mortos de Diogo Mainardi nos chegam em quadrinhos, ideia inspirada, provavelmente, em seu mentor, Ivan Lessa, que assinou uma coluna de fotonovelas em O Pasquim. Ou, quem sabe, esteja a homenagear Aretino, compadre de Ticiano que, ao lançar poemas luxuriosos no verso de xilogravuras eróticas, deu origem a uma das primeiras fotonovelas de que se tem notícia. Em Meus Mortos, Diogo Mainardi trata de luto e resignação, espólios e legados, cachorros e cavalos, transições e transcendências, detalhes e contextos, cores e obscurantismos, de alta cultura em dias de baixa qualidade, encerrando em si um manifesto a favor de uma verdade nua e crua endereçado a uma geração de analfabetos incapazes sequer de acessar os significados do traseiro que lhes é mostrado.