Um dia hei de provar que a partícula elementar da natureza deu-se à existência no estalo de um beijo cósmico. Como bem se vê, exerço agora a excêntrica profissão de físico teórico; e isso sem gastar um centavo sequer em doutoramentos, sem gastar um minuto sequer em laboratórios de altas energias, em suma, um expert só de ver e ouvir falar, em tudo semelhante aos autodidatas que fertilizam as redes sociais com suas vastas experiências. Ora, se é fato que a ciência não tem dono, nada me impede de, artesanalmente, investigar o mundo natural em busca da cama macia em que a ciência e a poesia costumam, vez ou outra, trocar licenciosidades. Consta nos livros antigos que a estrutura subatômica abrigaria três constituintes básicos, prótons, elétrons e nêutrons: a esses fui devidamente apresentado. Só que pesquisadores deram um jeitinho de espionar melhor o núcleo dos átomos e descobriram que por lá há mais atores. Apreciar os dramas que ocorrem no interior de um átomo não é tarefa fácil: não há, por assim dizer, microscópios que permitam observações diretas; a saída é recorrer a aceleradores de partículas, aparelhos quilométricos que forçam a colisão de prótons em altíssima velocidade para que detectores identifiquem e analisem as forças fundamentais da natureza. Quem, como eu, não está lá muito habituado à linguagem científica, depende de profissionais aptos a traduzi-la aos meios rudimentares de comunicação através dos quais o homem comum costuma elaborar seu pensamento; e como a natureza nem sempre encontra expressão nos idiomas humanos, reconhecidamente limitados, aqueles tradutores, não raras vezes, veem-se obrigados a recorrer a metáforas a fim de tornar compreensíveis os conceitos mais difíceis, notadamente aqueles expostos em linguagem matemática. E aqui mora o perigo: ao borrifar fantasia num campo em si repleto de mistérios, divulgadores da ciência terminam, inadvertidamente, por estimular que gente mal intencionada preencha eventuais frestas com argamassa metafísica. Okay, essa arenga segue meio esfumaçada, mas permitam-me descer um degrau a mais na escuridão e retornar àquele instante que circunda o tempo zero, momento singular no qual a matéria se agrupou com densidade e temperatura imensuráveis para depois, explodindo, espirrar poeira espaço afora. O modelo do universo inflacionário sugere que as partículas fundamentais teriam sido criadas microssegundos após o Big Bang, quando a matéria começava já a arrefecer; daí por que há quem defenda que a partícula primordial da natureza, mediadora dos demais elementos, teria de nascer antes disso, naquilo que, dentro da minha tese, representaria o estalo de um beijo cósmico. O recurso à alegoria, aqui, é inevitável. Imaginem um ponto em que a linha do tempo encontra um hiato e toda matéria se funde sob incomensurável atração gravitacional, culminando por produzir um evento raro, dramático, caótico, reostático, termogênico; então coleções de partículas excitadas e energias infinitas interagiriam entre si no atrito de línguas transmutadas para expulsar, enfim, a partícula-mor da natureza, fator de convergência dos porquês da vida, um perdigoto liberto no justo instante em que lábios, saciados, se descolam. Ocorreria, assim, a origem do Universo. Ou, pelo menos, do meu Universo.
“Se há uma coisa amarga, desoladora, é perceber, ao último momento, que a ideia justa era outra, um outro o movimento”. Eis uma frase extraída de Morrire per delle idee, adaptação de Fabrizio de Andrè de uma chanson de Georges Brassens. Trata-se de um libelo contra o radicalismo, um ataque não às ideologias em si, mas às suas vertentes extremistas, aquelas que se valem da histeria como ferramenta política, que instigam pessoas simples a cometer atos insanos que, não raras vezes, exigem o sacrifício capital. O argumento parte do princípio elementar de que ideologias não existem na natureza: a única forma de vida que age estimulada por ideais é a humana. Daí o assombro do poeta em ver pessoas matarem e morrerem por uma abstração, algo excluído do mundo real, existente única e exclusivamente dentro de nossa cachola: as ideologias. Vejam o caso de Jorge Amado. O escritor baiano dedicou a primeira metade de sua vida ao comunismo, exercendo cargos e funções no partido; teve, em retribuição, sua obra divulgada em países sob o guarda-chuva da União Soviética, recebeu premiações de instituições associadas ao partido, viajou o mundo e travou conhecimento com personalidades relevantes em sua época, quase todas vestidas com o mesmo fardamento ideológico; na outra ponta, viu-se severamente perseguido, preso e impedido de ingressar em países que condenavam o comunismo. E ao fim disso tudo, veio o dissabor de assistir, primeiro, à revelação, quando da abertura de Khrushchov, das atrocidades do stalinismo e, segundo, o desfazimento da União Soviética no período Gorbatchov, ponto final da ilusão comunista. Em seu livro de memórias, Navegação de Cabotagem, Jorge reflete sobre o luto de ter testemunhado a morte desta sua ideologia: “Conversando sobre o mundo que vira pelo avesso, o que falta ainda acontecer? Estraçalha-se o que parecia definitivo, desfazem-se certezas implacáveis, riscam-se do mapa nações, estados, federações, dissolvem-se ideologias, enterram-se teorias ditas científicas, apaga-se o farol que iluminava o mundo. Havíamos de viver para assistir à degradação da União Soviética”. Jorge Amado, que nunca foi radical, tampouco ingênuo, renunciou ao comunismo em 1955. O mesmo fez Ferreira Gullar. Outros, mais aferrados, insistiram até o fim, Saramago inclusive. Pois há um preço em abandonar o radicalismo: Jorge viu-se ameaçado por líderes do partido, gente que buscou ativamente apaga-lo do universo literário. Não conseguiram. Cito o exemplo de Jorge Amado, mas a tese vale para toda e qualquer ideologia, religiosa, política, filosófica, futebolística. Morrire per delle idee não está a defender que um indivíduo deva cumprir toda sua existência sem acreditar em nada: certas abstrações humanas, como honra e dignidade, têm resistido ao tempo, tornando-se verdadeiros memes culturais. O que a canção sugere é o comedimento, o autocontrole e a sobriedade em ações de inspiração ideológica. Há de se considerar que todo campo político tem um dono que enxerga no militante um vassalo dispensável; que a possibilidade de estarmos errados em relação a uma ideia é um princípio científico (ceticismo); que é irracional levarmos a extremos valores que em uma ou duas gerações ou não mais subsistirão, ou serão deveras relativizados; que a maior parte das propostas ideológicas chegam ao eleitorado com obsolescência programada, servindo, quando muito, ao curto prazo; que é injusto tatuarmos em nossa descendência ideais que, para ela, hão de soar anacrônicos. Sigam as ideologias se assim quiserem, é vosso direito; mas, por cortesia, peguem leve, fujam ao delírio, sejam intelectualmente honestos, elegantes e, sobretudo, reservem um bom espaço na mente a delícias cotidianas tão sensíveis e apaixonantes como uma canzonetta italiana.
Bem no início da Internet havia uma série de recomendações éticas, hoje desconstruídas pela deselegância pragmática que dominou o mundo. Uma daquelas recomendações estimulava os utentes a contribuírem para a incipiente rede mundial de computadores através de uma ação nobre: o compartilhamento de conhecimento. Ocorre que nem todos tinham acesso a repositórios online, tampouco habilidade para editar páginas da web mesmo com as facilidades oferecidas por aplicativos assaz intuitivos como o Microsoft FrontPage. Dessa demanda nasceram as ferramentas de weblog, ou simplesmente blog, mecanismos de interface amigável que franqueiam a criação de websites e a publicação de conteúdo online àqueles com pouca ou nenhuma experiência em informática. Uma das áreas que mais proveito tirou dessa evolução foi a literatura. Os blogs democratizaram a produção literária e seus entusiastas passaram a contar com uma comunidade inteira dedicada à escrita, comunidade essa que acabou por revelar autores interessantes. O caso mais emblemático talvez seja o de Ana Maria Gonçalves: de um blog inaugurado no início dos anos dois mil, a autora de Um Defeito de Cor terminou por ocupar, com todos os méritos, uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. O problema dos blogs é que suas barras de rolagem cronológica costumam esmagar os textos no passado. Daí o grande mérito da migração do ambiente virtual ao físico: resgatar produções interessantes que, de outra forma, restariam condenadas ao esquecimento. E aqui merece destaque a expansão (a meu ver tributária da evolução dos blogs) do mercado direcionado à edição de livros de autor, recurso derradeiro a escritores que não conseguem vencer os filtros das editoras. É nesse contexto que surge Des(a)fiando Contos, livro de autoria do colega blogueiro José da Xã reunindo histórias breves pinçadas, em sua maior parte, de seu blog na Internet. O título remete a uma das estratégias da comunidade blogueira a fim de incentivar seus adeptos, qual um exercício de escrita criativa: lançar desafios literários a partir de imagens ou temas e submeter os resultados à apreciação do grupo. Em Des(a)fiando Contos, José da Xã trata com esmero e generosidade a língua portuguesa, isso através de relatos pitorescos do ambiente rural português, sítios nos quais acontecer algo não é exatamente o costume, mas que acabam, aos olhos do autor, treinados naquele universo, por revelar segredos, tramas e mistérios, como o causo do cego que queria legar sua profissão – a cegueira – a seus filhos, e o do tio supostamente solteirão que deixou sua herança a uma família até então desconhecida. Mas não apenas isso. Vemos surgir também temas de diferentes matizes - a viuvez e suas pressões, o viajante sem rumo, a cumplicidade dos verdadeiros amigos, o palacete esquecido à espera de uma história, enfim, excertos da vida de pessoas possíveis que, se não resultaram flores glamorosas, grandes personagens da humanidade, vingam em semear o mundo com incidentes tão miúdos quanto preciosos, tornando-se, exatamente por isso, excelente material criativo. José tem o olhar atento aos pequenos detalhes da vida e a aptidão para traduzi-los em palavras. Soube que, a esse exercício inicial de escrita, seguiram-se outros trabalhos, mas isso é outra história.