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Pedro Lemos

Pedro Lemos

A estratégia do caos

Calhou então de enfrentarmos, eu e um colega, a dupla bicampeã estadual de dominó. Bons tempos aqueles de jogos universitários: democráticos, inclusivos, facultavam que, aos atletas das quadras, aqueles do vôlei, do basquete e do futebol, se unissem os atletas das cadeiras, aqueles do truco, do xadrez e do dominó (sem falar dos atletas das canecas, mas estes apareciam só na festa de encerramento). Cientes da dificuldade de vencer o match através das táticas tradicionais, decidimos, os espertalhões, jogar de forma ilógica, forçando uma espécie de caos metodológico baseado em códigos e improvisações. Não se trata de uma artimanha propriamente nova: no futebol americano, por exemplo, há uma manobra desse gênero, chamada Hail Mary, em que o quarterback arremessa a bola do jeito que der em meio à muvuca da Red Zone ... e seja o que Deus quiser. O que se viu foi uma loucurada épica, ninguém entendia nada, nem nossos adversários, nem nossa audiência: aquilo era tudo menos dominó. Favorecidos pelo elemento surpresa, acabamos por ganhar a primeira das três partidas; mas os campeões estaduais, experientes, não demoraram a sacar o nosso estratagema esquizofrênico, e nada mais precisaram fazer senão ignorar as pedras que lançávamos à mesa: focando exclusivamente naquilo que tinham nas mãos, resultaram vencedores do embate. Pois muito bem, dado tudo o que li e vi nos últimos meses, tendo a me filiar àqueles que acreditam que o governo Trump está a patrocinar uma verdadeira estratégia do caos: ciente de sua incompetência no jogo, nada mais faz senão embaralhar as peças e confiar na improvisação (Deus vult); se vencer, autocelebrará sua genialidade e suas bençãos divinas, se perder, transferirá a responsabilidade a um diabo qualquer. Ocorre que seus adversários parecem ter compreendido tal esquizofrenia e passaram a se concentrar naquilo que têm em mãos. O resultado soa-me previsível: ao seja o que Deus quiser costuma seguir-se o salve-se quem puder. Mas posso estar errado. Até porque acontece, vez ou outra, da idiotia vencer.

Tenda dos milagres culinários

Nasci e me criei em Santa Catarina, estado brasileiro que acolheu, ao longo do tempo, levas de gente de diferentes paragens (europeus, africanos e asiáticos), fluxo que terminou por espremer os povos originários em pequenas reservas. Dessa miscigenação resultou muita coisa boa, exemplos que dão, ou deveriam dar, orgulho aos catarinenses: dos estados brasileiros, o hino catarinense, de autoria do genial José Brazilício de Souza, é o único a defender a abolição da escravatura de forma explícita (o do Rio de Janeiro menciona o tema tangencialmente); nosso escritor de referência é nada menos que o poeta Cruz e Sousa, filho de escravizados cujo nome batiza o antigo palácio do governo estadual (hoje um museu); e embora o território catarinense tenha recebido milhares de imigrantes italianos e alemães, nem o fascismo, nem o nazismo, cresceram por aqui. Ao menos até agora. Pois com tristeza temos testemunhado o vírus do extremismo contaminar nossa política, culminando na eleição de parlamentares orgulhosos por expressar ideais e comportamentos para lá de grotescos. Semanas atrás, uma vereadora bolsonarista reivindicou a exclusão do romance Capitães de Areia, clássico de Jorge Amado, do currículo escolar de seu município. Tudo o que havia para ser dito acerca dessa ideia de jerico foi exaustivamente dito, e o tema parece ter sumido, felizmente, da pauta política. Com a súbita captura de Santa Catarina pelo radicalismo, era uma questão de tempo para que estultices como essa, frequentes em nações sitiadas por extremistas, chegassem até aqui: ao invés de nossos políticos olharem para nossas virtudes, dão-se à tarefa preguiçosa de copiar os vícios alheios, seguindo a orientação de gente que se compraz em criticar livros que tenham muitas palavras. Ora, tudo o que os radicais, sejam de direita, sejam de esquerda, almejam, é um povo ingênuo e semovente, inapto a reconhecer quando está a ser enganado: os livros, frágeis e desprotegidos, acabam por ser as primeiras vítimas. Parece, no entanto, que os catarinenses estão a reverter essa tendência, não pela força da razão, mas porque as tarifas recentemente impostas pelos USA contra o Brasil sob os aplausos da família Bolsonaro abalarão fortemente a economia do Estado. Ou o povo catarinense encontra uma cura ao vírus bolsonarista, ou terá de enfrentar desgostos típicos de uma mulher de bandido. Mas permitam-me voltar a Jorge Amado. O escritor baiano presenteou seu público com um delicioso livro de memórias, Navegação de Cabotagem: trata-se de um testemunho qualificado dos principais fatos que marcaram o mundo entre 1930 e 1990, incluindo a queda do comunismo (movimento ao qual ele renunciara lá nos idos de 1955), salpicado, aqui e ali, de preciosas anedotas, como a do dia em que apresentou o convalescente Gilberto Freyre ao Recando da Amadora, antigo restaurante lisboeta; fui à internet em busca dessa casa para futuras referências, mas me parece que ela não mais existe; todavia, encontrei um vídeo em que as proprietárias citam Jorge Amado dentre os clientes famosos. Deixo-vos com ele como forma de desagravo ao nosso gênio das letras.

Círculo de violência

Sabia bem o que queria, aquela moça. A começar, diferentemente de algumas de suas amigas, assaz generalistas quanto a envolvimentos afetivos, ela queria um homem. Mas não qualquer homem. Haveria de ser alto, atlético e agraciado com uma robusta bagagem íntima; haveria de ser culto, cavalheiro, elegante e inteligente; haveria de gostar de animais, ser do signo de aquário e ter vocação para cuidados parentais; haveria de possuir boa e estável condição financeira; haveria de votar nos partidos de esquerda; e por fim, mas não menos importante, haveria de amá-la sobre todas as coisas. Ausente uma destas qualidades, o pretendente, mais do que dispensado, resultaria sumariamente desprezado: nem para amigo serviria. Não correria ela, afinal, o risco de indesejadas artimanhas instintivas acabarem por sabotar seu bem elaborado projeto de vida. À sua frente havia um candidato interessante, um dos poucos a se destacar na insonsa multidão daquele bar. Seus atributos exteriores eram satisfatórios e a análise de sua personalidade sugeria compatibilidades. Estava a ponto de insinuar-se quando o alvo resolveu ir ao banheiro, e uma vez que seu caminhar revelou-se deveras estranho, não restou à moça outra alternativa senão descartá-lo. Tinha consciência de que certos pormenores, aparentemente irrelevantes, causavam-lhe desproporcional repugnância, mas ela era assim mesmo, perfeccionista, e merecia um homem com o qual pudesse sincronizar os passos nessa longa estrada da vida. Deitada agora num leito de enfermaria, ela fita o médico que passa em revista os pacientes. Lembra-se perfeitamente dele: é aquele mesmo moço cujo andar desajeitado lhe causara repulsa. “Disseram-me que a senhorita já consegue falar, é verdade?” Sim, é verdade. Depois de semanas a comunicar-se somente por escritos, gemidos e lágrimas, ela finalmente voltara a falar. Segura então a mão do médico e lhe abre o coração. Conta-lhe da noite em que o viu pela primeira vez e de como seu andar desajeitado a fez rejeitá-lo. “Esporão de calcâneo: está regredindo, felizmente”. Conta-lhe que, naquela mesma noite, naquele mesmo bar, aceitou ir ao apartamento de um bonitão que preenchia todos os requisitos de admissibilidade e ainda por cima era engraçado, extrovertido, espirituoso, enfim, um sedutor qualificado, desses que valem a pena mesmo que para uma noite apenas. Conta-lhe da excitação que sentiu quando aquele homem a prensou contra a parede e a beijou ferozmente, e da forma como o incentivava enquanto ele a possuía com volúpia selvagem, o modo correto, acreditava ela, como um homem deveria possuir uma mulher. Conta-lhe dos inúteis protestos que fez para que o homem parasse de estapeá-la e de seus gritos de desespero ao sentir-se violentada, aos quais ele respondia com sucessivos murros. Conta-lhe, enfim, que acordara no hospital com o rosto desfigurado e hematomas pelo corpo, e a primeira pessoa que enxergou foi justamente ele, o jovem que ela havia descartado dias antes, o mesmo que agora acalentava sua mão. "Rejeitá-lo foi uma péssima decisão, como se está a ver". Nem tanto, respondeu-lhe o médico: "Em termos de relacionamentos românticos, eu e você disputamos o mesmo mercado". Ela esboça um sorriso apagado. Não consegue entender, muito menos aceitar, aquela realidade: ver-se vítima de uma violência estúpida, gratuita, covarde. Sente-se suja, humilhada, culpada por ter caído na lábia de um monstro misógino. "Por que os homens fazem isso com a gente? Que morram todos eles, os pais, os filhos e os espíritos santos!” O médico balança a cabeça, concordando: “Não deves culpar-se. Somos todos potenciais vítimas dos psicopatas: eles estão em toda parte, circulam por todos os lugares, boates, palcos, hospitais, parlamentos, repartições, tribunais; é difícil identifica-los, mesmo com olhos treinados: são mestres da camuflagem e manipuladores intuitivos; e dão pouca importância às consequências de seus atos: vergonha, honra e dignidade lhes são indiferentes”. Mas aquele não era momento de palestra e sim de acolhimento: atrás daquelas ataduras há um ser humano a implorar por compaixão, alguém que carece de afeição, não de explicação. Daí por que prossegue em sua ronda sem contar à paciente que a violência é própria do universo masculino, tanto que os homens, ao longo da vida, correm mais riscos de morte violenta do que as mulheres; que a esmagadora maioria dos crimes violentos são praticados por homens entre dezoito e quarenta anos, mas, em contrapartida, a maioria das vítimas de crimes violentos são, igualmente, homens nessa mesma faixa etária, a evidenciar uma ação nociva da testosterona no comportamento masculino; que o impulso sexual e a violência estão de certa forma associados, uma vez que deitam raízes na mesma região do cérebro - a amígdala; que a par disso, a maioria dos homens consegue domar seus instintos primitivos; que os humanos tendem a tolerar a violência quando ela é bem empregada; que foi justamente um homem, o porteiro, quem a salvou, atendendo incontinenti a seus pedidos de socorro; que seu agressor, linchado por justiceiros revoltados, esteve internado naquela mesma unidade de terapia intensiva, vindo a falecer, coincidentemente ou não, durante o plantão daquele jovem de andar desajeitado por ela rejeitado, a mesma pessoa que, naquela mesma noite, naquele mesmo bar, havia paquerado, sem sucesso, o mesmo bonitão que viria espancá-la.

 

* Texto revisto em 12/08/2025

Quando o velho volta a ser criança

Um dia meu pai chegou em casa e me flagrou a assistir um episódio de Buck Rogers no Século XXV. Irritado, desligou a tevê. Aquilo não era coisa para meninos da minha idade. Como não? Havia ali tudo o que uma criança apreciava: pistolas de raio laser, batalhas com naves espaciais e um robozinho que falava bidibidibidi. Revendo a série, décadas depois, compreendi a razão da censura parental: as mulheres daquele século XXV eram, ou hão de ser, assaz sensuais; a personagem de Erin Gray costumava aparecer como que embalada a vácuo; outras vinham ainda mais ousadas, tapando apenas o essencial, detalhes aos quais eu, àquela época, não dava lá muita atenção, mas que foram imediatamente percebidos pelo velho, um moralista fermentado na mais reprimida malícia. Obedeci a ordem sem maiores protestos, até porque minha fixação, naqueles idos, era com artes marciais; e para minha sorte, as matinês do cinema dedicavam-se, basicamente, a produções de kung-fu. Bastava o filme começar para eu esquecer as traquinagens e me concentrar nos ensinamentos dos mestres Shaolin, e tão logo a sessão acabava, eu corria à rua a fim de testar as novas técnicas em meus amigos, os quais, naturalmente, não gostavam nada da ideia e respondiam aos meus articulados golpes recorrendo ao ancestral estilo uga-uga. Antevendo nessa mania uma vocação, que nunca existiu, minha mãe me matriculou numa academia de judô, da qual fugi assim que descobri que não haveria ali luta com espadas, golpes contundentes nem saltos acrobáticos. Que graça havia naquele negócio de atirar os outros ao chão e ficar contando até dez em japonês? Justamente nessa época ocorreu a grande guerra das mamonas, uma efeméride, ou cicatriz, no anedotário citadino. Sabe-se lá quem foi (a autoria – ainda bem! – jamais restou comprovada), mas o fato é que, em uma certa manhã, um estudante do primário aproveitou o horário do recreio para distribuir mamonas aos coleguinhas, isso com a ajuda de um bodoque de madeira, brincadeira cujo mérito foi prontamente reconhecido pela criançada; no dia seguinte, dezenas de facções armadas com estilingues corriam pelo pátio do colégio a riscar o espaço aéreo com mamonas, um combate em que não havia nem ganhadores nem perdedores, porque todos lá éramos ao mesmo tempo mocinhos e vilões (embora à diretora a espécie fosse uma só). Evitei encarar meu pai enquanto o policial lhe narrava as acusações que me eram imputadas, e de cabeça baixa fui ao quarto aguardar a sentença. O castigo, todavia, veio leve, muito aquém dos precedentes registrados na jurisprudência familiar; em resumo, meu pai dedicou-me um de seus famosos sermões, comparáveis apenas àqueles discursos infindáveis com os quais Fidel Castro costumava torturar os cubanos; ao final, conferindo o relógio, dispensou-me simplesmente, trancando-se em seus aposentos. Incrédulo com aquela inusual complacência, resolvi investigar; após palmilhar sorrateiramente pelo corredor externo, estiquei a cabeça pela janela a fim de bispar o que acontecia no interior da suíte, mas não testemunhei nada fora do normal, apenas meu velho, estirado na cama de casal, a assistir Buck Rogers. Às vezes os velhos voltam a ser crianças. Vai entender ...

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