Submissão
Lá vem ela em minha direção. Corpo esguio, de andar sensual, mas decidido; cabelo volumoso, cacheado, desses de altíssima manutenção; pele morena, generosamente exposta, hidratada segundo os melhores manuais de autoestima; e o olhar confiante de quem nunca ouviu um não como resposta. – Desocupada? Pergunta-me, apontando à cadeira vazia diante de mim. - Sim, fique à vontade. Aproveito e emendo uma gracinha: - Podes me levar com ela, se quiseres. A moça me responde com um "fofo!" e põe-se de volta aos seus, arrastando consigo a cadeira e todos os olhares disponíveis nessa apertada cafeteria. Deixou-me de presente esse adjetivo: fofo. Não sei bem o que fazer com ele. Jamais suspeitei que, ao final dessa longa e sinuosa estrada, restaria a mim uma qualidade tão feminina: a fofice. Cultivava ainda a fantasia de uma masculinidade íntegra, vivaz, capaz de encantar a mais furtiva das musas, mas depois dum fofo desses, atirado à queima roupa, devo aceitar as evidências e aderir à minha esposa em sua decadência psicofísica, aquela fase em que todo marlim fisgado chega carcomido ao barco, aquele posfácio em que desejo, aventura e charme pouca serventia têm, capturados que foram pela imperiosa necessidade de uma companhia, alguma poesia e muito bom humor. Vem-me agora a lembrança de meus dias de glória, quando eu, com desenvoltura e desembaraço, disputava pretendentes naquele maroto e ancestral jogo da côrte. Havia a Luciana, delicada, sensível, uma princesa de contos de fada; havia a Cristina, uma hippie prendada, fogosa e divertida; todas aprovadas no teste do beijo, todas rigorosas na proporção quadril-cintura. Quis o acaso - e aquelas inconvenientes manifestações do inconsciente - que eu caísse de amores por uma gordinha balzaquiana metida a intelectual, militante feminista, beauvoiriana, a cabeça ornada não por flores, mas por convicções, uma fiel colecionadora de camisetas de protesto (usadas sem soutien, evidentemente). O início foi comum, de encantos e espantos, de cautelas e avanços, de cumplicidades e mistérios. Só fui perceber aonde havia amarrado o meu jegue no dia em que ousei dar um tapa em sua bunda – um tapa largo, retumbante, dos bons. Seus olhos acusaram um brilho festivo, seus lábios esboçaram um sorriso conivente, seu semblante era, em última análise, puro gozo; então desceu-lhe da razão toda a carga de doutrinação e condicionamento antimachista, e sua resposta ao atrevimento marital não poderia ter sido mais desproporcional: - Tá me tirando pra pandeiro? Saiu então a chutar os móveis feito mula chucra, metralhando em minha direção todas as frases do manifesto igualitarista: que eu a respeitasse, que não a tomasse por objeto, que não fizesse mais isso; escorreguei pela parede em direção à porta, e antes de fugir, atirei contra ela a mais execrável das palavras, o esconjuro da bruxa emputecida, a criptonita da progesterona empoderada: - Histérica! O evento por pouco não terminou em divórcio (talvez o divórcio tivesse sido melhor, ao menos para mim: haveria tempo para encontrar uma morena de bunda retumbante que me tomasse por tudo, menos por fofo). Sua reação, tenho por certo, não foi pela palmada em si, mas pelo fato dela ter gostado: a surpresa do ato acabou por libertar instintos que ela lutava para esconder. A verdade é que fiquei com ódio daquela bunda: nunca mais olhei para ela com segundas intenções. Tirando pra pandeiro ... antes fosse! Aquilo está mais para bumbo (observação que me vem acompanhada dum grito enfurecido: – Porco chauvinista! É a voz tempestuosa e ubíqua de minha esposa alcançando os rincões mais distantes de meu pensamento, a censurar qualquer tentativa de licenciosidade vulgar). Seguiram-se décadas de altos e baixos, morde e assopra, alianças e competições. Pouco importavam as renúncias que eu fizesse, pouco importavam minhas qualidades e competências: nenhuma atenuante me era reconhecida. Havia sempre de prevalecer sua austeridade moral (hipócrita), seu julgamento falacioso (sumário), seu sexo civilizado (reprimido); havia sempre de superestimar sua parte no acordo (e subestimar a minha); havia sempre de recorrer ao discurso decorado, relegando sua autenticidade à arqueologia sentimental. Talvez tenha sido essa sua estratégia: minar minha confiança, destacar minhas fragilidades, incutir em mim a inutilidade de buscar um outro amor. Incapaz de distinguir entre o superficial e o essencial, minha esposa acabou por reivindicar tudo para si, conquistando, ao final, minha total submissão. Gostaria de poder elogiar sua roupa, seu esforço estético, de telefonar-lhe no meio de uma tarde qualquer para confessar minha saudade, de enviar-lhe flores em ocasiões especiais, de ser, vejam só, um homem básico, comum, mas nada disso funciona com ela, até o mísero “eu te amo” soa inconvincente, quando não piegas. Sua produção de ocitocina é, por assim dizer, problemática. Devo reconhecer, para ser justo, que minha esposa jamais esboçou qualquer desejo egocêntrico de sentir-se amada, assim como nunca me prendeu em uma cela tediosa: se o amor não floresceu conforme a tradição, não foi por falta de sol. Somos casados há quarenta anos e temo que nunca me tenha sido permitido conhecer sua essência, escondida que encontra-se em camadas e camadas de elucubrações ideológicas, emoções racionalizadas e sentimentos teatralizados. Ela realmente admiraria algo em mim? O macho propriamente dito certamente não a impressiona, dado que sempre me tomou como um eunuco funcional. Meus cuidados parentais, tampouco: não tivemos filhos, nem animais de estimação. De minha face intelectual, bem, sua decepção ficou evidente ao longo dos anos. Quiçá sente-se segura e protegida a meu lado, mas isso não iria de encontro à condição de independência e autonomia que ela tanto se esforçou para conquistar? O porquê de continuarmos juntos não se revela, pois, evidente. Acabamos por desenvolver uma forma exótica de amar, sutil, sofisticada, indiferente às habilidades inatas de vivenciar o amor. Nossas experiências compartilhadas acabam por assumir um significado indefinível. Se a ideia de amar for aquela de amar a si mesmo através do outro - algo um tanto narcisista - temo que ambos tenhamos dado com os burros n’água. O busílis talvez envolva o fato do amor romântico ser uma construção histórica, e como a história foi assaz cruel com as mulheres (não só com elas, mas deixemos assim), rejeitar o romantismo representaria uma indispensável práxis feminista. Pensando friamente, não me parece que nossas recompensas afetivas tenham justificado os sacrifícios, as abstinências e os desgostos, mas se estamos há tanto tempo juntos, é provável que eu esteja errado. Vai ver aquela morena de cabelos cacheados esteja me forçando a encarar a história da minha vida sob um viés pessimista. Estarei eu sendo vítima dum primitivismo anacrônico? Hoje, em minha escrivaninha, repousava um recado de minha esposa: - Comprar absorvente noturno. Não se tratava de um pedido e sim de uma ordem, uma missão contaminada pela raiva de ter perdido sua autonomia e, consequentemente, passar a depender de um homem. Submissa, finalmente! Parece que a velhice mata as ideologias antes de matar quem as defende. Confiro uma vez mais a jovem de cabelos cacheados em busca de alguma reação emocional que console este meu cismar lamurioso, mas desisto face ao perigo da voz tempestuosa de minha esposa vir sequestrar, novamente, a minha intimidade. Agora é melhor eu ir andando antes que a farmácia feche.