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Pedro Lemos

Pedro Lemos

O sentido das águas

Em “O sentido das águas”, Drauzio Varella reúne crônicas de suas viagens à bacia do rio Negro - o coração da Floresta Amazônica - feitas ao longo de trinta anos. De pronto, uma questão preliminar: a que sentido o título se refere? Sentido como direção (alto, médio e baixo rio Negro)? Sentido como resposta sensorial (“Nas primeiras viagens ao rio Negro, a imensidão das florestas e das águas me ofuscou os sentidos”)? Sentido como fluxo de sentimento ou emoção racionalizada (“Senti o ridículo de ter vivido quase cinquenta anos no país em que nasci sem me dar conta de tamanha beleza”)? Sentido como significado ou interpretação (“Há conversas que queimam a língua de quem fala e os ouvidos de quem escuta”)? Falar sobre a Amazônia faz mesmo todo o sentido. Quanto ao mérito, é provável que o leitor chegue ao final desse livro com uma resolução em mente: preciso conhecer a Amazônia. E isso porque o autor agrega tamanho encantamento a seus relatos que eles acabam por assumir contornos poéticos (“As ondulações da superfície decompõem a silhueta da vegetação para formar volumes cromáticos que reproduzem versões tropicais das paisagens dos impressionistas”). Alumbramentos como esses são contagiantes. E a capacidade da natureza de despertar a Síndrome de Stendhal naqueles que se dedicam a contemplá-la é bem conhecida. Mas então certos detalhes vêm à mente - distâncias épicas em transportes precários, calor implacável, pragas bíblicas – e aquela resolução, antes inabalável, acaba por esmorecer; mosquitos, formigas de fogo, maruins, abelhas, aranhas, cobras, enfim, fartas são as advertências escondidas nas entrelinhas do cardápio (“A ignorância tem o dom de simplificar o que parece complexo”). Daí a importância de livros como esse: traduzir a pessoas acomodadas as emoções dos aventureiros, atraindo o interesse por mazelas e belezas escondidas dos olhos urbanos. Para além da geografia natural, “O sentido das águas” dedica-se também à geografia humana: o contato do autor com indígenas, caboclos e ribeirinhos alimenta causos que ajudam a traçar o panorama daquela região, a qual, infelizmente, é virtuosa em desgraças. Sim, o livro expõe o assédio sofrido pela Amazônia ao longo dos séculos por um dos mais implacáveis predadores do planeta - o homem dito civilizado - que tem levado às margens do rio Negro, em assaltos sucessivos, “o que de mais danoso existe na sociedade”, deixando um rastro de doenças, miséria e destruição (“A tragédia vivida pelos povos do rio Negro nas guerras contra o colonizador europeu repetia-se sob o jugo dos comerciantes brasileiros”). Mas não é porque o passado foi trágico que o futuro deve sê-lo, e “O sentido das águas” abre espaço ao otimismo, ainda que cauteloso: “O trabalho de novas lideranças indígenas desenvolvido com o apoio de instituições é um exemplo de como é possível respeitar os desígnios, valorizar os conhecimentos e o modo de vida das populações originárias sem impor valores estranhos a elas, como fizeram religiosos durante séculos”. Aprende-se muito com esse livro. O olhar aguçado de Drauzio aproxima o leitor da floresta e da população que a habita ao mesmo tempo em que pinça referências bibliografias e pesquisas científicas realizadas naqueles confins (“Vivem no Brasil aproximadamente 20% de todas as espécies já descritas, cerca de metade delas na Amazônia”). Ficamos cientes, por exemplo, de que aquela floresta, aparentemente robusta, é na verdade demasiadamente frágil, eis que assentada em solo pobre, a dificultar sua regeneração (“A percepção de que o fogo é capaz de destruir para sempre esse equilíbrio delicado é assustadora”). Ao tratar com cientificidade e sensibilidade uma variedade de questões de interesse socioambiental, “O sentido das águas” acaba por se tornar um verdadeiro libelo humanista, donde o histórico de degradação da natureza e de descaso com as populações originárias bem serviriam de bússola moral às políticas públicas no futuro.

O Apanhador no Campo de Centeio

Romances de formação têm por vocação explorar o processo de amadurecimento do ser humano, estimulando os adolescentes a enfrentarem questões essenciais à vida adulta. Alguns focam em temas específicos: “Os Sofrimentos do Jovem Werther” aborda a dor psicológica resultante de um amor não correspondido (quase um clichê em se tratando de jovens da nossa espécie); “Capitães de Areia” explora os aspectos sociológicos que circundam a pobreza infantil (abandono, fome, violência e injustiça social); “Pollyanna” busca passar uma mensagem de otimismo face às inevitáveis dificuldades da vida, ressaltando a importância da empatia, da bondade e da generosidade na sociedade. Outros são mais generalistas, abarcando uma gama variada de assuntos. E nesta seara, o destaque vai para “O Apanhador no Campo de Centeio”. Nos três dias que leva para ir do internato à casa de seus pais, o protagonista, um adolescente da alta classe novaiorquina, enfrenta questões como dúvida existencial e incerteza quanto ao futuro; literatura (“O que me derruba mesmo é um livro que, quando você acaba de ler, você queria que o escritor fosse teu amigo de verdade”); adaptação escolar e sistemas pedagógicos; narcisismo (“Só porque eles são doidos por si próprios, acham que você também é doido por eles”), traumas, pânico, luto e sofrimento psicológico, incluindo depressão, ansiedade e possível bipolaridade (“Você está falando de ir num psicanalista e tal?”); valores morais e liberdades individuais (“Acho que se você não gosta de verdade da menina, você não devia ficar fazendo bobeira com ela”); preconceito, intolerância, honra e hipocrisia (“Você veja lá uma pessoa que chora a dar com o pau com essas coisas fajutas dos filmes, noventa por cento de chance dela ser uma filha da puta no fundo do coração”); sexualidade, homossexualidade, fetiches, assédio e ciúmes (“Ele dizia que você podia virar desmunhecado praticamente da noite pro dia”); dilemas religiosos, ateísmo e livre pensamento (“Pra começo de conversa, eu sou meio ateu. Eu gosto de Jesus e tal, mas o resto da Bíblia não me interessa muito”); querelas políticas e lutas de classe (“Tudo o que eu tinha era burguês pra diabo”). O crítico literário terá à sua disposição praticamente todas as abordagens reconhecidas pela teoria da literatura a fim de fundamentar sua análise. Além da pluralidade temática, “O Apanhador no Campo de Centeio” é particularmente interessante aos jovens em razão da prosa adotada pelo autor, que, tomando um adolescente como narrador, vê-se obrigado a emular o dialeto utilizado pela juventude daquela geração (a dar um trabalho a mais aos tradutores quando da adaptação da obra no tempo e no espaço). Políticos, magistrados e religiosos têm especial fetiche por romances de formação, não faltando exemplos de censura a obras que, supostamente, corromperiam a mocidade. Trata-se, a meu ver, de uma mera demonstração narcisística de poder. Não há nada mais incentivador e gratificante a um jovem do que violar as proibições dos adultos. “O Apanhador no Campo de Centeio” antecipa essa discussão ao mostrar adolescentes a beber, a fumar, enfim, a fazer tudo aquilo que pais, professores, sacerdotes, políticos e juízes lhes dizem para não fazer. Há quem interprete isso como incentivo, mas sejamos honestos: a insubordinação e o experimentalismo adolescente não apenas são uma realidade como fazem parte do processo de amadurecimento.

O ser organizado

Em 2004 decidi digitalizar a burocracia que me sitiava desde o nascimento. Comprei um scanner com opção duplex e converti em arquivos PDF toda sorte de documentos que eu, por paranoia ou conveniência, considerava importante: certidões e identidades oficiais, atestados e diplomas de formação profissional, laudos e exames de saúde, manuais de eletrônicos, comprovantes de pagamento e notas fiscais, apostilas e textos universitários, seguros e revisões veiculares, e por fim, fotografias. Muitas fotografias. Das vantagens desse processo destacam-se a proteção contra incidentes fortuitos e desintegração natural, a agilidade na obtenção da informação e, talvez a principal, a portabilidade. Os riscos? O vazamento de dados e a corrupção dos back-ups. Bem medido e bem pesado, o resultado foi excelente. Sinto-me hoje em condições de trabalhar em qualquer lugar do mundo e, se me houvesse disposição, transformar-me num bem-aventurado nômade digital. Mas há alguns poréns. É preciso disciplina para manter organizadas as dezenas de pastas digitais. De nada adianta ter o documento digitalizado se não conseguir encontrá-lo quando necessário. Meu pai, cidadão que cumpriu a vida na era analógica, tinha fama de homem organizado. Ele mesmo se orgulhava de sempre encontrar aquilo que procurava, documentos, ferramentas, varas de marmelo. Quando de seu falecimento, coube a mim devassar seus arquivos, missão realizada ao custo de muito estresse emocional. Então descobri que aquela fama de organizado era puro mito. Vejam que uma das gavetas de sua escrivaninha para nada mais servia senão abrigar centenas de canhotos de cheque - alguns emitidos quarenta anos antes. O que ele tinha era uma memória prodigiosa que lhe permitia lembrar o exato local em que guardava suas coisas. Ou talvez ele tenha relaxado na velhice, o que me parece assaz compreensível. Sei apenas que, quando eu morrer, meus sucessores encontrarão todo o necessário ao inventário em meus arquivos digitais. Se é que, naquele longínquo futuro em que a inevitável efeméride ocorrer, essa forma de organização não esteja irremediavelmente em desuso, tal como os cheques atualmente.

Arroubos da indiferença

Eis uma frase famosa atribuída a Elie Wiesel: "O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença". Recorro a ela para ilustrar minha fase atual. Pois tenho andado indiferente a tudo. Bem que eu gostaria de ver-me apaixonado, ou ao menos entusiasmado em fazer algo, mas há um tempero mental, uma mistura de tédio e esgotamento com pitadas de fastio e nojo, que me gera uma gastura quase incapacitante. Resisto como posso. Procuro caprichar nas caminhadas em busca de efeitos peripatéticos, confiro as atrações no cinema, vasculho títulos nos streamings, mas nada me desperta volúpias. Os livros dão-me algum consolo: escrever sobre eles é o que me resta e tentarei fazê-lo a seguir. Tornar-me-ei um Dom Mofino? Sei lá. Minha indiferença vale ao futuro também. Mas tal leseira não me impediu de ir ao teatro assistir “Dois de nós”, peça de Gustavo Pinheiro com Antônio Fagundes, Cristiane Torloni, Thiago Fragoso e Alexandra Martins. O texto é ótimo, daqueles que nos impõem tarefas tão exaustivas quanto necessárias: refletir sobre o passado, imaginar o futuro, pensar na vida. Foi divertido, uma generosa intercorrência que tornou menos áspera a romaria por essa estrada pedregosa. Também tenho lido com gosto vossos blogues. Dia desses um colega afirmou que a Igreja Católica “seria hoje a única instituição com verdadeira presença global”. Trata-se, a toda evidência, dum ufanismo cristão. Basta ver que em boa parte do Oriente a figura de Jesus Cristo ou é desconhecida, ou é indiferente. Considerando a Índia, a China e o Japão, o cristianismo não há de abarcar 3% da população, e a influência do papa, em tais regiões, é diminuta. Claro que por lá há igrejas, como também as há em cantos remotos da região Amazônica, mas daí tomar tal presença como relevante, e mais ainda, positiva, é uma questão controvertida. Do meu ponto de vista, a única instituição com presença global é a Fifa, com o culto ao futebol a pregar princípios de equidade e justiça que muitos povos não encontram fora dos estádios. Penso que, sob o viés eminentemente filosófico, as religiões - a maioria delas, ao menos - manipulam dois produtos básicos: o medo da morte e a esperança na vida eterna. O lucro do comércio de tais produtos é revertido à luta narcisista pelo poder, uma luta que, não raras vezes, é indiferente aos direitos humanos, e o mais ultrajante, vem travestida de assistencialismo clientelista. Okay, escrevi demais sobre um tema inflamante. Desculpem-me. A promessa aqui é ser indiferente. Concluo minha arenga referenciando a frase que resume a humildade dos filósofos helênicos: "Sou grato à fortuna por três coisas: ter nascido homem e não mulher; ter nascido grego e não bárbaro; ter nascido livre e não escravo". Não se sabe exatamente qual daqueles famosos gregos escreveu essa máxima, mas me parece razoável acreditar que todos eles a aceitavam como verdade. Refletir sobre privilégios de nascença é, pois, algo antigo. Creio ser justo sopesarmos certos privilégios de nascença quando da promoção de políticas públicas: o que importa, afinal, em termos de equidade, é a igualdade real, aquela a se manifestar nas ruas, e não a igualdade formal, aquela “perante a lei”. A melhor forma de balancear tais privilégios, mas não a única, é oferecer educação de qualidade a todos, e isso a partir de impostos progressivos (tributos focados em educação são a melhor forma de promover a distribuição de renda). Pessoas bem educadas fazem toda a diferença, ainda que uma ou outra acabe tragada pela indiferença.

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