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Pedro Lemos

Pedro Lemos

Custo-benefício

O vivente chega aos cinquenta anos e se vê compelido a observar uma série de procedimentos a fim de assegurar alguns anos a mais de vida neste espaço-tempo. Começamos com as consultas anuais ao clínico geral, ao urologista, ao oftalmologista e ao dentista; seguem-se então os exames: sangue e urina (a fim de saber se os órgãos internos estão a funcionar adequadamente), ultrassom das carótidas e do abdome, cintilografia cardíaca, raio-x dentário e fundoscopia; e por fim, os medicamentos: antidepressivos, ansiolíticos, comprimidos para combater o ácido úrico, o colesterol e a glicose, compostos para suprir a carência de vitamina D e B12, ampolas para reposição hormonal e, claro, vacinas. Muitas vacinas. Isso só para fins preventivos: notável é a sagacidade do acaso em acrescentar dramas ao nosso prontuário médico. Há que se ter paciência, disciplina e, sobretudo, dinheiro, um tripé difícil de reunir no tumulto do dia-a-dia. Sou a favor de que, além das férias anuais, a legislação franqueie a todo cidadão com mais de quarenta anos alguns dias por ano dedicados a exames preventivos. Soube que a Alemanha teria um projeto neste sentido. Acredito que esse avanço civilizacional acabaria por reduzir os afastamentos para tratamento de saúde e aliviaria a pressão orçamentária dos sistemas sanitários nacionais. Seja como for, esse pitaco deve ser avaliado em conjunto com uma dúvida existencial e, infelizmente, oportuna: ainda vale a pena investir nesse mundo?

Tempos difíceis

Cumprindo o dever anual com a prevenção ao câncer de próstata, fui dia desses ao urologista e acabei por descobrir, inadvertidamente, que ele enfrentava momentos desafiadores em sua vida. Protegido pela luva descartável parcialmente lambuzada de gel, o médico iniciou o exame como de costume, embora tivesse de fato o ar distante; quando eu acreditava que a missão estivesse no fim, eis que o expert pôs-se a desabafar, falar de dramas que muitas vezes regrediam à sua infância, coisas que reservamos, via de regra, aos nossos terapeutas da mente; e eu ali, deitado na maca, pernas abertas, focado naquilo que, do meu ponto de vista, era realmente essencial. Iam já vinte minutos nessa sessão psicológica quando ele então desabou a chorar, deixando a situação ainda mais constrangedora; e percebendo sua intenção de enxugar as lágrimas que escorriam abundantemente em sua face, achei por bem intervir: “Com a outra mão! Com a outra mão!” Desse dia em diante minha vida só piorou, mas deixarei os detalhes para mais tarde. Há que se dar um passo de cada vez, não é mesmo?

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