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Pedro Lemos

Pedro Lemos

Uma simples decisão

Então lá estava ele, esparramado, lençóis egípcios engomados, cama king size, chalé à beira-mar, a admirar a moça deitada na areia, uma jovem cujos seios espetavam estrelas no indefectível tecido cósmico. Quem, como você, curioso leitor, invadir a história neste exato momento, sentir-se-á compelido a pensar “eis um homem que venceu na vida”, mas alto lá! Poucos são os revezes de uma existência aptos a encontrar redenção num paraíso qualquer. Sim, tal felizardo reconhecia seus privilégios, o exotismo daqueles dias, o aroma daquela pele fresca que invadia a alcova agarrado à maresia noturna, a cadência ansiolítica das ondas, a efêmera languidez do hedonismo, mas isso apenas porque os contrastes em sua memória lhe franqueavam uma visão depurada da realidade, uma realidade que, àquele momento, inspirava-lhe um raro sentimento de gratidão. Pois a jovem à sua frente, sua namorada, era uma estudante de medicina que, muito além da carne apetecível que caridosamente lhe oferecia, teve a bondade de atualizá-lo nas formas de amar e ser amado, e o fez com eficiência científica. O amor evolui tão rápido quanto a medicina, dizia ela. Não há conversas mágicas, bem sabemos, mas os protocolos terapêuticos ministrados pela mocinha lhe resultaram deveras convincentes. Sentia-se curado. Saciado. O que mais haveria de querer? Tomou de impulso o telefone que descansava à mesa de cabeceira. Conferiu novamente as mensagens, ampliou a imagem do avatar. Aquela viúva espremida na fotografia, que buscava saber como ele tem passado, se estaria com alguém e coisa e tal, fôra o grande amor de sua juventude, um amor que, deveria reconhecer, ecoava até hoje. Quiçá não fosse mais amor e sim saudade de amar daquela maneira intensa, delirante e inconsequente com a qual a amara. Fechou os olhos. Vieram-lhe à lembrança os tempos das grandes descobertas, o calor dos corpos tímidos a acompanhar a música lenta, o perfume floral de debutante, o beijo sabor Coca-Cola. Felicidade é uma festa adolescente com beijo no final. Devolveu enfim o telefone à mesinha, cuidando para não derrubar a cartela de pílulas azuis e a garrafinha de água gaseificada. Notou em seguida que sua namoradinha estava agora de bruços, nua ainda, e generosa como sempre. Que decisão haveria de tomar? Tanto nos resta a dizer quanto lhe resta a pensar.

O triunfo da carência

O amor é o triunfo da carência. Não há, racionalmente, problema algum em viver consigo mesmo, mas poucos são os humanos (poetas em sua maioria) que enfrentam com proficiência uma existência solitária. Talvez porque certas pressões evolucionárias atuem em nosso inconsciente com o objetivo de estimular o contato social, relacionando virtudes que precisamos acumular e vontades que devemos abdicar a fim de consumar uma sociedade conjugal. Será mesmo possível que amor, saudade, afeto e carência deitem raízes em um único gene? Os primatas, humanos inclusive, são seres sociais: os solitários, neste contexto especulativo, integrariam uma exceção em que o aludido gene ou foi silenciado, ou teve baixa expressão. Vejamos um exemplo. Alguém me contou que, num futuro distante, mas não muito, a humanidade, cumprido um século de generalizada caquistocracia, sentirá falta de uma literatura autêntica: a produção massificada de histórias superficiais elevará a metáfora do palimpsesto a extremos insuportáveis, com a incorrigível autorreferência e a vocacionada intertextualidade dos promptautores a desencadear recorrentes episódios de déjà vu. Com leitores enjoados a abandonar os livros, a habilidade da leitura, e a própria capacidade cognitiva dos humanos, resultarão comprometidas. O problema é que, àquele tempo, não haverá mais originais à espera de publicação – terão todos sido inutilizados naquilo que chamar-se-á de grande revolução editorial - tampouco restarão escritores de qualidade, à exceção - descobrir-se-á - da ex-secretária de um Nobel de Literatura - o último antes do prêmio ser extinto - tendo ela mesma produzido uma reunião de poemas cuja publicação, obviamente, foi recusada. Uma comitiva encontrará tal poetisa em um sítio isolado: estará assaz idosa e a única companhia que possuirá consistirá dum humanoide configurado para ajudá-la nas tarefas cotidianas. Os comissionados a cercarão. Que ela publique seu livro. Que escreva romances instigantes, comoventes, aterrorizantes. Que ensine jovens escritores. Cumprirá a si a missão de salvar a literatura mundial e, consequentemente, a humanidade inteira. Serão muitos os apelos, sinceros, genuínos, sentidos, mas a velhinha, com as devidas vênias, a todos recusará: "Deixei pelo caminho as paixões da juventude. O único amor que cultivo é o amor próprio, um amor que, como bem sabem, é impossível dividir-se com outra pessoa, que dirá com toda a humanidade". Assim dar-se-á o fim da literatura.

Flor de restinga

Confiro ao longe nossa restinga viva e florida, implacável frente ao peso dos corpos, indiferente à sensualidade das palavras, imaculada, ainda que dos humanos tão próxima, e àqueles que sobre ela perderam a noção do tempo, eterna. Oxalá eu fosse melhor do que aquilo que provaste no desvario da noite, enquanto decifrávamos constelações entre lágrimas de vento e beijos salgados. Usas o dialeto da minha terra, apreciamos coquetéis de igual teor, somos tarjas da mesma cor. Que fim levaríamos não tivesse a dramática explosão do superego vencido nossa força gravitacional? Quem dera eu fosse melhor do que isto que ignoras longínqua no espaço-tempo: um artesão de dunas. Cumpre enfim tua sentença: deslumbre a Via Láctea! Seguirei caçando teu brilho com olhos desfocados pela infame sujidade do dia a dia.

Cada geração com suas prioridades

Boteco à beira-mar, mesinha de plástico, garrafas e garrafas de cerveja, três aposentados a gastar as horas. Chega então o Careca, atrasado como sempre, afobado como sempre, e imediatamente sequestra a palavra: “E essa aliança entre Musk e Trump? Ontem saiu uma notícia revelando o contentamento do dono do Twitter, quer dizer, do xis, com seu poder de moldar conversas e resultados nacionais. Obviamente ele manterá tal poder sobre a mesa em suas negociações com Trump. Com qual objetivo? Bem, a China vem conquistando o mercado de carros eletrificados, colocando em dificuldade os demais players do setor; investidores, dentre eles Bill Gates, passaram a apostar na queda das ações da Tesla; os papéis da empresa caíram de quatrocentos dólares em janeiro de 2021 para duzentos dólares em outubro de 2022, mês em que Musk comprou o Twitter; ato contínuo, Musk passou a adotar medidas a fim de tornar a rede mais atraente à extrema-direita, cujos adeptos ostentam uma rejeição ideológica à China. Ou seja, Musk sentiu a pressão e partiu para a ação, participando ativamente da campanha de Trump e trazendo os votos de uma parte significativa da juventude que o tem por guru. Tarifas elevadas sobre carros chineses salvariam não apenas a Tesla, mas também as montadoras europeias, o que explicaria, a propósito, a recente participação de Musk num comício da extrema-direita alemã. Claro que, do ponto de vista da ciência econômica, tal estratégia equivale a uma trapaça, dado que ...” Só então percebeu que seus confrades não lhe davam a menor atenção; pôs-se a perscrutar o ambiente a fim de identificar o busílis quando então Mafalda, filha do dono do bar, surgiu ao seu lado em sua celebrada configuração de princesa teutônica de cravos bem temperados. “Mais uma, rapazes?” Sim, claro. Os olhos dos quatro brindaram àquela musa que valia, indiscutivelmente, todas as conspirações do universo.

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