Amante latino
Tenho comigo que meu desempenho nas artes braçais não desapontaria eventuais empregadores. Não tivesse a vocação me empurrado à “turma da caneta”, eu bem encontraria o sucesso como “marido de aluguel”. Gastei alguns dias montando e desmontando armários, e o resultado foi digno de elogios. Retornei ao meu rincão com a satisfação da missão cumprida e algumas dores pelo corpo. Chego aqui e me deparo com uma comoção nas redes sociais envolvendo a conturbada repatriação de imigrantes brasileiros deportados dos EUA (acusações de maus tratos estão a ser investigadas). Devo por bem registrar duas preliminares: a) sobejam evidências de que nem Lula, nem Bolsonaro, tampouco Biden e Trump, estejam minimamente preocupados com a situação dos brasileiros em geral, que dizer de nossos patrícios flagrados ao tentar ingressar ilegalmente numa nação estrangeira; b) deportação e repatriação de brasileiros por nações estrangeiras é, infelizmente, algo comum, e nem quanto ao uso de algemas é possível reclamar, uma vez que o Brasil adota o mesmo procedimento (embora o faça de modo mais criterioso). Dito isto, petistas e bolsonaristas têm buscado capitalizar politicamente o incidente, lançando acusações mútuas como crianças numa guerra de mamonas. Trata-se de uma verborragia que, a par da virulência delinquente, revela-se vazia, uma vez que nenhum dos lados aponta medidas práticas a fim de resolver o problema. Assim é que, enquanto as redes decidem qual dos estúpidos tem o melhor argumento, os brasileiros deportados continuarão a sofrer o que tiverem que sofrer (vale ressaltar que o maior sofrimento dessas pobres almas será continuar a viver num país que não lhes oferece a menor esperança de um futuro melhor — um sentimento próximo ao da escravidão). Sem embargo, do ponto de vista pragmático, há limites operacionais difíceis de serem vencidos no tocante à repatriação de imigrantes ilegais, seja onde for. Basta ver que, a par do discurso anti-imigração de Trump, ele não conseguiu superar Obama no número de deportações. O problema é que a retórica xenófoba, ainda que vacuidosa, não é nada inofensiva, ao contrário, tem alto poder de repercussão nas ruas, fato agravado, atualmente, face ao incompreensível apelo que as falas de Trump têm sobre seus seguidores (ligam mais que merda em tamanco). Bem medido e bem pesado, penso não ser o momento de oferecer às americanas meus préstimos como “marido de aluguel”. Pois sim, do meu falacioso ponto de vista, essa neurose da extrema-direita com os latino-americanos não passa de uma reação inconsciente ao estigma do amante latino, esse “macho man” insaciável capaz de levar qualquer mulher à loucura na cama: os MAGA têm é medo de que suas loiras reprimidas, provando o importado, passem a rejeitar o nacional.