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Pedro Lemos

Pedro Lemos

Amante latino

Tenho comigo que meu desempenho nas artes braçais não desapontaria eventuais empregadores. Não tivesse a vocação me empurrado à “turma da caneta”, eu bem encontraria o sucesso como “marido de aluguel”. Gastei alguns dias montando e desmontando armários, e o resultado foi digno de elogios. Retornei ao meu rincão com a satisfação da missão cumprida e algumas dores pelo corpo. Chego aqui e me deparo com uma comoção nas redes sociais envolvendo a conturbada repatriação de imigrantes brasileiros deportados dos EUA (acusações de maus tratos estão a ser investigadas). Devo por bem registrar duas preliminares: a) sobejam evidências de que nem Lula, nem Bolsonaro, tampouco Biden e Trump, estejam minimamente preocupados com a situação dos brasileiros em geral, que dizer de nossos patrícios flagrados ao tentar ingressar ilegalmente numa nação estrangeira; b) deportação e repatriação de brasileiros por nações estrangeiras é, infelizmente, algo comum, e nem quanto ao uso de algemas é possível reclamar, uma vez que o Brasil adota o mesmo procedimento (embora o faça de modo mais criterioso). Dito isto, petistas e bolsonaristas têm buscado capitalizar politicamente o incidente, lançando acusações mútuas como crianças numa guerra de mamonas. Trata-se de uma verborragia que, a par da virulência delinquente, revela-se vazia, uma vez que nenhum dos lados aponta medidas práticas a fim de resolver o problema. Assim é que, enquanto as redes decidem qual dos estúpidos tem o melhor argumento, os brasileiros deportados continuarão a sofrer o que tiverem que sofrer (vale ressaltar que o maior sofrimento dessas pobres almas será continuar a viver num país que não lhes oferece a menor esperança de um futuro melhor — um sentimento próximo ao da escravidão). Sem embargo, do ponto de vista pragmático, há limites operacionais difíceis de serem vencidos no tocante à repatriação de imigrantes ilegais, seja onde for. Basta ver que, a par do discurso anti-imigração de Trump, ele não conseguiu superar Obama no número de deportações. O problema é que a retórica xenófoba, ainda que vacuidosa, não é nada inofensiva, ao contrário, tem alto poder de repercussão nas ruas, fato agravado, atualmente, face ao incompreensível apelo que as falas de Trump têm sobre seus seguidores (ligam mais que merda em tamanco). Bem medido e bem pesado, penso não ser o momento de oferecer às americanas meus préstimos como “marido de aluguel”. Pois sim, do meu falacioso ponto de vista, essa neurose da extrema-direita com os latino-americanos não passa de uma reação inconsciente ao estigma do amante latino, esse “macho man” insaciável capaz de levar qualquer mulher à loucura na cama: os MAGA têm é medo de que suas loiras reprimidas, provando o importado, passem a rejeitar o nacional.

Grilado

A janela (aquela com vista pro mar), emperrada; o teto, manchado de mofo (o vizinho insiste que a culpa não é dele); a lava-louças, estragada. Não sou de cansar ouvidos maldizendo a vida (tendo a ser melhor ouvinte que falante, um dos vícios da introspecção). E tenho certo pudor em abraçar a autocomiseração enquanto pessoas mundo afora estão a sofrer muito mais do que eu. Desabafos bons mesmo viram poesia. Mas o fato é que certos eventos têm corrido inversamente ao planejado. Não estou a me referir, obviamente, aos problemas com a janela, o mofo e a lava-louças, meras ranzinzices do cotidiano. Ocorre que eu esperava paz nestas férias, e a paz, tímida, faltou ao encontro. Nem a paz do entorno, ambiental, nem a paz da mente, existencial, apareceram. Meu apartamento, um pedaço de Saigon. Nos anos setenta, diriam que eu andaria grilado. Mas quem não anda grilado hoje em dia? Deito a cabeça, fecho os olhos, e legiões de grilos indignados cercam minha cama. Soma-se a isso o excesso de gente ao redor, muito, mas muito além do tolerável prum ermitão como eu. O segredo é cansar o corpo de tal forma que o sono venha antes dos grilos atacarem. Enfim. Nada que eu não consiga manejar com a expertise adquirida e a medicação prescrita. Grilos e pererecas vivem aos milhares no meu rincão: aprende-se a lidar com eles. Mil vezes as pererecas, vale dizer, mas tem chovido pouco por aqui. E sem chuva, elas somem. Daí mesmo é que os grilos prosperam. Meu erro foi insistir em fazer planos, nutrir esperanças, o que, para mim, é contraintuitivo. Não acredito nem em destino, nem em livre-arbítrio: temos um controle relativo sobre nossas ambições. Aceitar que a vida seja uma sucessão de acasos não deixa de ser reconfortante. Acabamos por dividir as culpas, carregar menos pecados e sermos mais justos com a nossa existência. Desculpem, ando sem inspiração. Só me restou esse fluxo mal humorado. Malditos grilos ...

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