Um restaurante à beira dum rio, uma noite fresca e mansa, uma taça de vinho verde. Casais apaixonados passeavam à margem, exercitando a contemplação; uma moça anotava verdades inconfessáveis em seu Moleskine; o garçom consultava impacientemente seu relógio de pulso. Gastava eu aquele restinho de dia, espantando pensamentos enquanto a vida pingava da clepsidra sideral, quando então um retratista assaltou-me como um lobo frente a uma presa imprudente. Farei vosso retrato, pague se e quanto quiseres, propôs-me o artista, agregando à sua voz o sinistro timbre da extorsão. Cumpriu o que prometeu: levou-me um dinheiro, deixou-me um retrato. O resultado, porém, acabrunhou-me. Olhar para si mesmo não raras vezes causa constrangimento. E isso vale tanto à carne dada ao espelho (alimento à dismorfia corporal) como ao nosso interior (nossa tão bem camuflada intimidade). Tomamos uma lanterna imaginária e passamos a examinar os cômodos do nosso inconsciente, ora gigantescos ferros-velhos de sonhos e fantasias, traumas e decepções, medos e covardias, culpas e remorsos, ora salões majestosamente vazios, metáforas de uma imponente vida desperdiçada. E perscrutamos esse mundinho com cuidado, pé por pé, para não melindrar o superego. Daí vem um artista e, com rabiscos de pincel atômico sobre uma cartolina branca, acaba por revelar um humano banal, gasto, resignado, uma ferramenta inocente, uma espátula de confeiteiro, enfim, uma interpretação tão perfeita de mim que causaria inveja ao melhor dos analistas. Serei assim tão óbvio, tão evidente? Queria tão somente gastar aquele restinho de dia bebericando vinho à beira dum rio como todo humano banal, gasto e resignado faz para compensar a realidade, e no entanto vi-me obrigado a resgatar pensamentos que tanto me esforçara para espantar. Dizem que a função da arte é mesmo causar incômodo. Pois aí está. Relembrando agora aquela noite, o que mais me incomoda foi ter ficado sem saber quem era a moça do Moleskine e o que tanto ela escrevia nele. Eita retratista inconveniente ...
Chegou-me aos olhos o relatório de um ensaio clínico realizado durante uma investigação científica no campo da neuropsicologia. O objetivo do experimento era identificar eventuais efeitos produzidos no organismo humano por uma droga sintética derivada de um determinado fungo. O estudo inicia-se com a exposição da metodologia adotada, transcrições de pareceres bioéticos e menções a exames anexados, mas deixaremos essas e outras preliminares de lado, ao menos por enquanto, e seguiremos diretamente aos resultados verificados após a equipe ministrar o composto sub examine. O voluntário não demonstrou maiores alterações fisiológicas no período de observação; também não manifestou queixas álgicas, agitação, confusão mental ou síndromes vestibulares. Seu relato, todavia, indica acentuada repercussão da substância em suas funções cognitivas e sensoriais, embora dissociadas dos precedentes extraídos da bibliografia de referência. Em síntese, não teria ele vivenciado nenhuma sensação lisérgica ou estupefaciente, ao contrário, a droga em análise tê-lo-ia permitido perceber o mundo com acuidade, lucidez e profundidade jamais testemunhadas, a resultar em uma total compreensão da realidade e dos mecanismos que regeriam a natureza. Dias após a conclusão do ensaio, o voluntário apresentou um quadro de apatia que beirava a abiose, fruto, concluiu a equipe, de uma severa depressão; do pouco que conseguiu verbalizar, o voluntário argumentou que, tendo intuído a realidade com acuidade, lucidez e profundidade prodigiosas, todas as abstrações (fantasias, mitos, dogmas e ideologias) que sustentariam sua existência restaram desconstruídas sem que houvesse um projeto apto a substituí-las. Sua interação com o ambiente, paulatinamente moldada a partir da infância, tornara-se, agora, impossível. Seus caminhos neurais não conduziriam mais a nenhuma fonte de prazer. A vida, enfim, perdera o sentido. A resposta do voluntário soou ainda mais inusitada dada a ciência de que ele integrara o grupo de controle, ou seja, teria recebido não o princípio ativo objeto da pesquisa, mas um mero placebo. O desafio passou a ser então explicar a origem dos efeitos colaterais a fim de tentar reverter a condição depressiva; e neste sentido, passados meses desde o início do tratamento, o voluntário ainda não respondia adequadamente a nenhum dos protocolos convencionais, a ponto de tornar-se elegível a um programa experimental conduzido pelo próprio departamento, programa esse baseado, vejam só, em uma droga sintética derivada de um determinado fungo.
A mesa retangular ocupava a maior parte da sala, qual um peru em prato de sobremesa; em torno dela, acomodada em largas poltronas de couro, uma dezena de autoridades aguardava o início de uma reunião destinada a decidir aquilo que há muito fôra decidido. À cabeceira, o chefe, orgulhoso das articulações que habilmente conduziu: meses em reuniões com representantes de categorias cujo interesse na demanda era manifesto ou presumido, políticos, militares, magistrados, empresários e uma infinidade de assessores técnicos, todos atendidos, todos satisfeitos (uns mais do que outros). Daquela reunião resultaria uma medida que afetaria o futuro do país no próximo século: os investimentos públicos passariam a privilegiar o modal rodoviário de transporte em detrimento dos demais. Deve-se, por justiça, creditar a ideia ao governo anterior; todavia, o atual achou por bem acelerar processo visando estimular o desenvolvimento econômico; abrir estradas país afora fortaleceria setores como o da construção civil e as indústrias automotiva, petroquímica e siderúrgica, sem falar da infinidade de comércios e serviços associados ao tema. A promessa de crescimento vertiginoso do produto interno bruto e de criação de milhares de postos de trabalho haveria de afastar eventuais resistências à proposta; mas, por via das dúvidas, a assessoria de imprensa formulara estratégias a fim de ocultar algumas consequências demasiadamente constrangedoras, dentre elas, a dependência do petróleo, a degradação ambiental, a poluição urbana, o elevado custo do transporte rodoviário, o caos logístico fruto do excesso de veículos, das distâncias continentais e das intercorrências climáticas, a dispendiosa manutenção da malha e, o mais cruel, o sofrimento humano decorrente dos inevitáveis acidentes de trânsito (a pressionar, de uma só vez, as emergências dos hospitais e a previdência social), tudo isso, a carnificina, a incompetência, a irresponsabilidade e a má-fé, concentrado no bico de uma caneta esferográfica. Claro que tal renúncia moral tinha um preço; nada, porém, que os generosos lobistas não pudessem arcar. O resultado encontrava-se estampado nos semblantes das autoridades ali reunidas, todas exultantes, todas saciadas (umas mais do que as outras). Quanto a eventuais resíduos de culpa, seriam eles expiados transferindo-se a responsabilidade à indiferença da população, recorrendo-se a cinismos do tipo “se eu não fizesse, outro faria”, ou, em casos extremos, rezando-se três pais-nossos e três ave-marias. Quanto ao chefe, este estava imune a sentimentos negativos: era puro regozijo. Com as mãos presas atrás da nuca, esticado à poltrona, acompanhava a minuta circular entre seus colegas, cada qual lançando nela sua assinatura, formalidade derradeira daquele belíssimo trabalho que, diziam os presentes, resultaria objeto de estudo em todo o serviço público. Mal sabia ele que, dali dez anos, seu filho, sua nora e seus três netos morreriam em um trágico acidente numa rodovia federal recentemente inaugurada. Aquele asfalto carregaria, afinal, o seu DNA.
Acreditava que sua esposa o traía. E por acreditar que sua esposa o traía, comportava-se como se ela de fato o traísse. E por se comportar como se sua esposa o traísse, seus amigos acabaram por acreditar que ela de fato o traía. Tinha-se por corno, comportava-se como corno, era visto como corno: era, para todos os efeitos, um corno. Um corno putativo. Começou naquela tarde em que flagrara sua esposa, o amor de sua vida, a papear com um bonitão num discreto café da cidade; e um papo animado, empolgado, do qual ele, o marido, nutria saudades. Descobriu então que a esposa e o bonitão seguiam-se mutuamente nas redes sociais: ele curtia todas as fotos dela, e ela, as dele. O marido sequer desconfiava, mas, àquela altura, estava já infectado pelo vírus do ciúme. Sua esposa não gozava mais da proporção quadril-cintura ideal, mas continuava atraente, desejável, trazendo muito do viço da juventude; e o bonitão era um sedutor vocacionado: moreno, alto, encorpado, assaz eficiente em seus cuidados com a imagem. Deu-se assim o marido a ruminar, dia a dia, a semente da dúvida, e sabemos bem que nada de bom advém de uma mente ruminante. Certa noite uma cena inusitada lhe assaltou o sonho: sua mulher a mergulhar lascivamente no corpo do rival, nadando nele a braçadas desesperadas. Despertou abruptamente, buscando ar, constrangido por uma inconveniente excitação. Decidiu faltar ao trabalho aquele dia. Haveria de seguir a espertinha de perto. Ocultara na bolsa dela um rastreador que, todavia, nada revelara de incomum em seu cotidiano. O flagrante exigiria trabalho de campo. E assim foi. Cumpria a esposa a rotina usual, embora demonstrasse uma faceirice incomum, uma graça que despertava no marido fluxos extras de ultraje: ela saltitante, descontraída, ele a torturar a si mesmo qual um Dom Casmurro. Quanta humilhação! Eis que lá estavam os dois, sua amada e o suposto amante, atados num longo abraço à saída da academia de ginástica: uma traição às claras, ostensiva, descarada. Saltando do carro qual um detetive a caçar um assassino, avançou decididamente em direção à mulher, que naquele instante descia a rua, sozinha: “Podes me dizer quem era aquele bonitão?” Dos olhos do marido chispavam a cólera do ciúme mesclada ao medo da verdade. “Aquele bonitão é o namorado do meu irmão”, respondeu a mulher, maliciosamente, enquanto acariciava o rosto desfigurado do marido. Seguiu-se então o repertório de clichês de estilo: o homem de joelhos, meio aliviado, meio envergonhado, abraçado ao ventre da esposa a implorar o seu perdão. Amaram-se aquela noite como se houvessem renovado os votos. Pela manhã, ainda em baby-doll, a esposa, agora redimida, acompanhou o marido ao elevador, despediu-se dele com um beijo honesto, desejou-lhe bom trabalho; ao voltar, notou a porta de sua vizinha entreaberta, convidativa. “Hoje não: ele anda ressabiado.”