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Pedro Lemos

Pedro Lemos

Romance epistolar

Alguém fuxicara suas cartas. Organizava os maços seguindo uma ordem específica, uma ordem que apenas a ela fazia sentido, uma ordem que não reconheceu ao abrir a caixa de sapatos em que guardava suas correspondências. Devassar a intimidade de uma adolescente representa mais que uma traição: é um ato torpe, um atentado à dignidade humana. Quem seria capaz de tal vilania? Sua mãe? Improvável. Gastava os dias ocupada com suas coisas, sempre assoberbada, sempre indisponível. Suas irmãs talvez? Mas qual das três? Ou teriam agido juntas, qual uma matilha de lobas? Suas tias? Suas primas? Suas amigas? Toda aquela que usufruísse do livre acesso ao seu quarto seria a rigor uma suspeita. Mas o que fazer a respeito? Como desarmar essa trama? Seria o caso de confrontar uma a uma, extraindo a verdade a fórceps? Botou-se a reler as cartas a fim de identificar algum fato comprometedor, mas suas amigas, felizmente, eram assaz comedidas, não citavam nomes, não revelavam intenções, pouco mais acrescentavam além de infantis trivialidades: empréstimos de livros, trocas de fotografias, desenhos fofinhos, fofoquinhas inconsequentes. Suspirou aliviada. Mas e as que ela enviara? Eram as mais das vezes respostas longas e opinativas. Gozariam da mesma higidez moral daquelas recebidas? Atirou-se à cama, chorou de soluçar. Era a primeira vez que investigava o mundo sob a lupa da aleivosia. Conceber que uma desconhecida, mal-intencionada talvez, tivesse acesso à sua intimidade, aos seus pensamentos, cobriu-lhe de angústia e vergonha. Pois haveria de se vingar dessa gente estúpida, desse mundo cruel. Colocaria na caixa alguma coisa assustadora, uma cobra medonha, uma aranha horripilante, algo capaz de transtornar o espírito da bruaca fuxiqueira. Dormiu deliciada aquela noite, antecipando o susto que haveria de causar: um deslinde grotesco a uma perfídia grotesca. Ao acordar, todavia, matutava um outro plano: decidira subverter a trapaça a seu favor. Escreveria a si própria, fingindo ser outrem; e assim manipularia a bisbilhoteira, direcionando seu pensamento, extraindo dela as atitudes que melhor lhe conviessem. Nutria o desejo de passar uma temporada com a avó na capital: aquela vila interiorana cobria-lhe de tédio e fastio. Pois seria esse o seu objetivo. Nas cartas que enviava a si mesma, sua amiga imaginária demonstrava uma crescente preocupação com seu estado emocional, sua tristeza persistente, seus sonhos intranquilos, e o principal, suas fantasias maliciosas cujo protagonista seria um homem mais velho, sedutor, anônimo. Não conteve-se, porém, à simulação escrita: agregando à ficção ares verossímeis, a moça passou a interpretar o papel de donzela apaixonada, dedicando-se a tardes introspectivas no jardim da casa, a ler Camilo à sombra do grande carvalho dos fundos. Chegou então a primavera: era hora do arremate. Em tons emotivos, quase dramáticos, sua confidente fictícia concluiu sua última missiva suplicando para que a frágil amiga considerasse passar uma temporada com sua avó na capital: seria essa, sem dúvidas, a melhor forma de superar aquele amor impossível. Dias depois, notando a filha à sombra do carvalho, sozinha, seu pai aproximou-se, engatou uma conversa carinhosa ao final da qual, vejam só, propôs que ela passasse uma temporada com a avó na capital. Seria ele o pérfido que violaria sua intimidade? Óbvio que não. Um homem daquela envergadura, grave, moralista, jamais entregar-se-ia a tais grosserias; a bruaca fuxiqueira, cujo nome permaneceria oculto, teria revelado a ele os dramas de sua filhinha, dramas que ela inventara em noites inspiradas, divertidas, e que acabaram por conduzi-la à tão sonhada capital, na qual meditava, agora, se deveria dar continuidade à aventura epistolar, desfraldando com isso um mundo de possibilidades, ou deixar tudo para lá, encerrando a história com esse efeito moral piegas e utópico.

Aluga-se um amigo

Estou de mudança em definitivo. Dessas mudanças em que levamos gatos e sapatos. Outra cidade, outro país. Há que se desmanchar uma vida inteira, desfazer-se de móveis e imóveis, a casa com tudo dentro, incluindo itens de inestimável valor emocional. O mais difícil, todavia, é deixar os amigos. Enfrentar seus olhos cabisbaixos diante da notícia é particularmente doloroso. Aqueles casados, agraciados com numerosos familiares, sofrem menos (quando não veem na distância uma oportunidade para viajar com a desculpa de matar a saudade). Mas há aqueles amigos solitários, órfãos, tímidos, introspectivos, que não costumam responder bem à separação. Pois tenho um desses. Trata-se, à primeira vista, de um Zé Ninguém, um de tantos pacatos cidadãos que cruzam diariamente conosco. Mas atentando aos detalhes técnicos do produto, conclui-se que é de excelente qualidade. Cultura enciclopédica, neutralidade política, idoneidade moral, doutorado em nerdologia e ecletismo musical são alguns de seus atributos. Goza de pouca sensibilidade poética, é verdade. E não é nem bonito, nem popular. É como um banco sem encosto numa praça sem árvores. Mas é um bom banco, cumprindo adequadamente as funções às quais a natureza o forjou. Numa tarde vadia, de céu nublado, pode render boas reflexões (não estou aqui a sugerir que sentar-se, literalmente, no indivíduo, seja capaz de despertar enlevos filosóficos: há que se interpretar adequadamente a metáfora). Os interessados em alugar este amigo, façam a gentileza de manifestar interesse na caixa de comentários (atentando ao fato de que essa história é fictícia).

A quinta geração

Chego em casa, finalmente. Percebo imediatamente a imponente estante de madeira maciça a descansar no canto da sala, ladeada por caixas de papelão. Abandono a mala. Penduro o casaco. Passo a inspecionar o móvel em busca de eventuais danos, especialmente em suas decoradas portas de vidro. Nada. Nenhum arranhão. A transportadora fez mesmo um bom trabalho. Eis intacto meu quinhão da herança do vovô. Que, em seu leito de morte, confessou-me um segredo. Ponho-me a investigar com os dedos o fundo da mobília até encontrar uma saliência discreta, quase insensível ao tato. Pressiono com força o dispositivo, destravando assim a gaveta oculta na parte inferior da estrutura. Retiro do compartimento um pequeno baú de madeira. Restam no mundo menos de dez exemplares conhecidos da primeira edição de O Guarani, obra-prima de José de Alencar: neste pequeno baú de madeira repousa um deles, uma peça perfeita, lombada em couro original, folhas com o amarelado natural do tempo, mas sem rasgos ou manchas perceptíveis. Em cima dela, três dezenas de envelopes datados do período imperial, organizados em maços atados com barbante; não sei quanto ao conteúdo, mas alguns dos selos que os chancelam soam raros, a merecer uma pesquisa criteriosa. Nas ditas caixas de papelão, apenas livros. Muitos livros. Começo o meticuloso trabalho de organizá-los, esforçando-me em reconstituir a admirável biblioteca do vovô tal como ele dispôs. Deparo-me então com mais uma obra rara, uma tradução ao português de L'Homme Machine, de Julien de la Mettrie, editada em Londres nos idos de 1806. Tratar-se-á de uma edição clandestina? Causa-me espanto a quantidade prodigiosa de cotas marginais lançadas em tal volume, anotações que, à primeira vista, foram feitas por indivíduos distintos, quatro ao todo, para ser preciso; as mais antigas aparentam pertencer ao adquirente, uma vez que a pena e a tinta da assinatura de posse correspondem às dos escritos; as mais recentes são sem dúvidas de meu avô, dada sua caligrafia miudinha, reconhecível de pronto; quanto aos demais, um faz referência ostensiva à Teoria da Evolução, consumindo, inclusive, as duas páginas em branco ao final da obra; o outro cita Epicuro, Espinosa, Helvétius e Comte, mas nada de Darwin, o que me leva a presumir que sua intervenção tenha ocorrido anteriormente a 1859; sobre as autorias propriamente ditas, ambas permanecem, por enquanto, inconclusivas. Sinto-me compelido a acrescentar minhas próprias observações, mas parece não ter sobrado mais espaços em branco. Meus antecessores foram assaz prolixos. Talvez seja melhor reunir tais registros em uma espécie de edição comentada: veríamos não apenas a repercussão da obra de La Mettrie na sociedade como também a evolução da filosofia natural a partir de então. Haverá de ser esse, pois, o legado da quinta geração a manipular esse exemplar? Antes de tudo, é necessário atestar se os comentários justificam o esforço. Se há um campo fértil ao devaneio fútil é o da filosofia.

Exéquias

A noite, chuvosa. A rua, um breu. Na casa de madeira nua, um candeeiro brilhava sobre a mesa da cozinha, em torno da qual os filhos sentados estavam, cabisbaixos, semblantes graves, indiferentes à mãe que preparava a sopa no fogão à lenha. “O mano levou-o quando o sol nascia, e até agora, nada, nenhuma notícia. O hospital fica no outro lado da cidade: com a carroça naquele estado, hão de ter chegado por volta do meio dia. Os primos trabalham naquela região, trariam recado, se necessário. Aqueles três andam de má vontade conosco, não sei a razão”. A conversa lhe chegava clara, ainda que baixinha, quase sussurrada, mas a mãe fingia não ouvi-los: deixava as frases passarem incólumes pelos ouvidos. Sua mente ruminava uma dúvida existencial: “E agora?” A porta da casa entreabriu-se: o irmão mais velho enfim retornara. Antes de entrar, porém, tirou suas botas enlameadas, pendurou o casaco encharcado e vestiu o chinelo de couro à sua espera no alpendre. Caminhou até a cabeceira da mesa, lugar até então reservado ao pai. Sentou-se. Sua expressão severa antecipava a notícia. “Pois bem, o velho morreu. Chegou morto ao hospital. Não houve nada que os médicos pudessem fazer por ele”. Tomou um guardanapo de pano encardido e o passou sobre as pálpebras, úmidas de chuva, não de lágrimas. Então prosseguiu. “Foi enterrado no cemitério do Pilarzinho. O assunto, em resumo, está resolvido”. “Sem velório?”, interveio a caçula. “O cemitério fica próximo ao hospital: trazer o corpo aqui e retorná-lo lá a fim de cumprir as exéquias exigiria mais de um dia. O cadáver apodreceria. Ademais, quem haveria de aparecer para homenagear aquele homem?” A mãe depositou a grande panela de ferro no centro da mesa: ovos de galinha cozidos em caldo de sopa de legumes eram uma tradição antiga da família. Serviu o jantar aos filhos, prato a prato, cuidando para que cada qual tivesse o seu. “Adesso basta di piangere, basta di parole: mangiamo, dai”, ordenou a mãe. Sentada na ponta oposta, ela remexia a sopa em seu prato. Sem ovo. “E agora?”

Quando a plateia salva o espetáculo

Beto Guedes integra a linhagem mineira da música popular brasileira, ramo que inclui nomes de expressão como Flávio Venturini, Lô Borges, Fernando Brant e a turma do 14 Bis, dentre tantos outros, reunidos, muitos deles, no Clube da Esquina, projeto capitaneado pelo gigante Milton Nascimento. Havia anos, senão décadas, que Beto Guedes não dava o ar da graça em Florianópolis, razão pela qual o anúncio de seu show causou comoção por aqui. Ocorre que o evento enfrentou algumas dificuldades: problemas na logística aeroportuária desgastaram fisicamente o artista, que coleciona já 73 anos de idade, e a sonorização foi comprometida por microfonias recorrentes. Percebendo o constrangimento do músico, a plateia decidiu que aquele show haveria de ser um sucesso, querendo ou não o destino: tomando as rédeas da situação, o público passou a interagir ostensivamente com o cantor, aplaudindo as sucessivas interrupções, fazendo troça do engenheiro de som (Colabora, Bruno!), descontraindo enfim o ambiente, não deixando, assim, a peteca cair. Superados os obstáculos iniciais, a banda, empolgada com a cumplicidade da audiência, correspondeu à altura, apresentando versões enérgicas dos clássicos de Beto Guedes que, ao final, acabou ovacionado. Comovido, prometeu voltar. Aguardemos, então.

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Meditabundo

Um dia ele fugiu de casa. Seguiu pela beira da praia até que seus olhos não enxergassem viva alma entorno a si. Era a primeira vez que se via sozinho. Realmente sozinho. Sentou-se sobre uma pequena duna costeira. Pôs-se a contemplar o mar. Não havia muito o que pensar. Seu horizonte não vencia as ondas daquele oceano infinito. Decidiu dormir ali mesmo. Cobriu-se com areia até o pescoço, tal como faziam os antigos povos que vagavam por aqueles rincões, colhendo mariscos, semeando sambaquis. Quando o sol deitou-se no oeste, acendendo as estrelas, um meteorito cruzou o céu, assustando-o. O menino então voltou ao lar, em desabalada carreira, bem a tempo do jantar. Uma vida depois lá estava ele, naquele mesmo cantinho escondido, seu recanto das almas perdidas. Tantos foram os anos a viajar o mundo, dissecando a geografia humana. Para quê? Do que viu e provou, restou apenas o amargor em relação aos homens, um ódio acerbo, nauseabundo, especialmente daqueles que almejavam ser gigantes nesta sociedade anã, resultarem sábios numa civilização caduca. Não há sentido à vida. Não há propósito algum a ser cumprido. Existimos e basta. Talvez tenha havido, no passado, dois ou três projetos, ponderáveis desafios existenciais. Hoje não mais. Pena? Só das crianças, cujas oportunidades – ódio! - serão furtadas por corruptos e safardanas. E assim ruminava enquanto a tarde caía. O sol deitou-se enfim no oeste: o touro avançava no horizonte. Decidiu que dormiria ali mesmo. Meteoritos não mais o assustavam. Também não haveria nada para jantar, nem um lar ao qual voltar. Não havia sequer alguém para lembrar, senão aquele menino que um dia deitou-se lá.

É castigo do vício o próprio vício

Pois bem, depois de implicar a um só tempo com esquerdistas, feministas e muçulmanos, correndo, ipso facto, sério risco de cancelamento sumário (ou, ao menos, de ver-me tachado de macho palestrinha – um brasileirismo para mansplaining), eis que me vejo obrigado a enfrentar o resultado das eleições americanas, que, não por coincidência, coloca na berlinda aqueles três grupos políticos. O propósito do meu artigo foi defender medidas pragmáticas em detrimento de ideologias vacuidosas e contraproducentes. Citei o caso de Ahoo Daryaei, estudante iraniana que despiu-se à entrada de uma Universidade em protesto contra a compulsoriedade do uso do véu islâmico e, em razão disso, acabou internada em uma instituição psiquiátrica. Os valores ocidentais nos impulsionam à defesa da moça, mas o que podemos fazer, pragmaticamente? De início, dar-lhe voz, reconhecer sua condição e o sofrimento a que está sujeita; em seguida, cobrar nossos representantes para que demandem das autoridades iranianas respeito aos direitos das mulheres, isso em homenagem às relações socioeconômicas mantidas entre as nações; e, no longo prazo, votar em candidatos que patrocinem essa causa. Ocorre que certos grupos de esquerda se recusam a encampar tais iniciativas face à aliança geopolítica que mantém com grupos islâmicos ao enfrentamento ao imperialismo capitalista (ou como queiram chamar). Cuspir e tacar pedra em pessoas com poder de decisão (os eleitores) não goza de pragmatismo algum, ao contrário, evidencia uma reação emocional, imatura ou proposital, que nada mais faz senão sepultar o diálogo, ainda que acarrete ganhos pessoais em seu respectivo campo político. Instaurada a guerra entre radicais, aqueles que mais precisam de políticas efetivas acabam ignorados. Sobre a eleição estadunidense, remeto ao arremate daquele famoso poema de Bocage: O prêmio da virtude é a virtude. É castigo do vício o próprio vício. Cada povo tem o governo que merece, e ao que dos autos consta, governos autocráticos costumam aterrorizar sua população (os adversários, notadamente, mas também aqueles que lhes dão suporte, os denominados idiotas úteis, submetidos ao temor reverencial). Resta confiar que os europeus conseguirão suplementar aquilo que os americanos negarão ao mundo. Fica a lição: investir pesadamente em educação, valorizar a União Europeia (que, dividida, resultará conquistada), e, sobretudo, desencorajar o radicalismo, incluindo o verbal.

Ahoo Daryaei contra a síntese da covardia humana

A primeira notícia que me chega neste domingo é ilustrada com a imagem de uma jovem parada, de braços cruzados, seminua, à entrada de um prédio. Trata-se de Ahoo Daryaei, uma estudante iraniana que, hostilizada por agentes da polícia moral em razão da suposta inadequação de sua indumentária, acabou por despir-se em forma de protesto. Saber que essa moça resultou internada em uma instituição psiquiátrica deixou-me com o coração apertado. Tapa-me de vergonha o fato de o presidente do Brasil e seu campo político respaldarem o governo iraniano: sacrifica-se, simultaneamente, a honra dos brasileiros e a liberdade dos persas por interesses políticos narcisistas. Censura idêntica merece o movimento feminista internacional, que dedica à luta das iranianas um conivente silêncio (tema abordado por Bill Maher neste episódio). A ausência de cientificidade seria suficiente para deslegitimar o movimento feminista como instituição: em vez de buscar amparo em áreas como a biologia comportamental (que estuda com seriedade temas como a violência de gênero), compraz-se em estabelecer deduções silogísticas a partir de reinterpretações da história, com o viés a direcionar, sempre, à confirmação da tese. Daí por que as práxis que promovem ao enfrentamento do machismo e do patriarcado (que são consequências e não causas) revelarem-se tão eficazes quanto a homeopatia (machos da espécie humana impunham-se pela força milhares de anos antes da estrutura patriarcal surgir). Não se resolve um problema sem um diagnóstico correto. Se a ausência de cientificidade é suficiente para deslegitimar o movimento feminista como organismo, sua omissão em relação à violência institucional sofrida pelas mulheres no mundo islâmico acrescenta um peso a mais a tal impropriedade: torna o movimento em si antifeminista. Do meu ponto de vista, e posso muito bem estar errado, o movimento feminista tem atuado como mera franja de grupos ditos de esquerda, os quais têm por estratégia apropriar-se das pautas identitárias (apropriação no sentido de dominação, exclusividade, ou seja, movimentos feministas, antirracistas, LGBTs e ambientalistas, gozariam de legitimidade apenas se abençoados pelos politburos). A captura de movimentos sociais por grupos ditos de esquerda mostra-se contraproducente, primeiro, porque há inúmeros campos políticos de centro simpáticos às suas demandas (vide o Livres no Brasil), segundo, porque os valores ocidentais que os radicais buscam problematizar são justamente aqueles que viabilizam a amplificação de suas vozes, e terceiro, porque atraem para si a rejeição de outras pautas. Seja como for, não haveria maiores problemas em relação a tal vassalagem, não estivessem, os politburos, associados a movimentos islâmicos no combate ao Grande Satã (aqueles, via revolução cultural, estes, via terrorismo). Servindo organicamente a um delirante bem maior, qual seja, o fim do império americano e/ou do capitalismo, movimentos sociais acabam por patrocinar iniciativas esquizofrênicas como Feminism for Palestine e Queer for Gaza (busca-se, em ambos os casos, disfarçar o paradoxo apropriando-se de princípios humanistas universais como o da não violência). Semanas atrás assistimos um comediante sugerir, num dos shows mais populares dos Estados Unidos, que gays estariam impossibilitados de expressar sua homossexualidade em Gaza devido às bombas israelenses, quando a realidade é a oposta. Sobre a realidade das mulheres na Palestina antes de 7/10/2023, a HRW tem seu relatório (o qual, diga-se, não exime Israel de responsabilidade). Desde quando o paradoxo, o dadaísmo filosófico, a esquizofrenia militante e a desonestidade intelectual deixaram de constranger os ativistas? Citamos razões científicas, políticas e morais a fim questionar o movimento feminista como instituição. Contudo, para mim, basta a imagem de Ahoo Daryaei, sozinha, corajosa, a enfrentar a síntese da covardia humana: o silêncio. 

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Idílio

Entrou pela cozinha. A casa simples de madeira nua, depositada sobre grossas palafitas (que vivia escancarada, dada ao vento e à maresia, oferecida), soava, àquela hora, vazia. Seguiu, pé por pé, até o quarto do rapaz. Que dormia. Deteve-se um tempo a admirar seu corpo seminu, bronzeado, estirado de bruços sobre o colchão de palha que, bem sabia a moça, pinicava. Deitou-se ao seu lado. Vestia aquele minúsculo biquíni vermelho, cavado, que tanto furor causava nos marmanjos da praia. Fez-lhe cafunés, suspirou-lhe muxoxos, soprou-lhe a penugem do rosto, a protobarba de que tanto se orgulhava. Como não lhe respondesse, resolveu deixá-lo em paz. Gastava as manhãs no mar, a surfar: suas sestas eram assim mesmo, pesadas. A tarde avançava: a roupa no varal aguardava providências. À noite, na lanchonete de sempre, seus amigos faziam troça de sua inação face àquilo que, para eles, representaria a oportunidade de uma vida. A moça perguntou então ao rapaz: Sonhavas? Sim, contigo, a me fazer cafunés, suspirar-me muxoxos, soprar-me a barba.

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