O papagaio planou do poleiro à cozinha. Um filete de luz matinal escapava da cortina lateral, destacando, como um holofote, o saco de sementes de girassol esquecido na pequena mesa quadrangular em que as humanas faziam as refeições. Intuía algo de errado em sua iniciativa, mas não resistiu à tentação: pôs-se a colher as sementes, uma a uma, descascando-as rápida e habilmente, e engolindo-as imediatamente. Esvaziou o pacote, enchendo o pandulho. Só então reparou na mulher a repousar no sofá. Aprumou-se, envergonhadamente. Descoberta a travessura, acabaria por levar uma reprimenda. “Sementes de girassol são petiscos, não refeição”, vivia a lhe repetir, como se papagaia fosse. Seria o caso, pois, de amaciar a chefia. Fez-se pousar no ombro da mulher, e unindo aos lábios dela o seu bico, num simulacro de beijo, disse-lhe: “Eu te amo”. A mulher, contudo, não respondeu. Nem poderia. Estava morta. Partira tranquilamente à noite, enquanto dormia. O papagaio insistiu: “Eu te amo, eu te amo”. E nada. Voou então à janela, onde havia uma pequena fresta, e abanando as asas, botou-se a gritar “Eu te amo”. Quem pela frente passava achava graça, mandava-lhe beijos. Vídeos do louro apaixonado fizeram sucesso nas redes sociais. Até que a filha voltou do plantão. Seu instinto clínico pressentiu o óbito ao notar que a mãe, igualmente, não lhe respondia. Sentou-se ao lado dela, tomou-lhe o pulso, sentiu a temperatura. Conferiu enfim as horas no relógio da parede. Quedou-se um tempo no sofá, segurando as mãos geladas da mãe, contemplando-a uma última vez. O papagaio retornou ao ombro da mulher, mas nada disse, nem fez. Percebia a ausência naquele corpo. Uma lágrima enfim venceu a resistência da filha. Que, ato contínuo, ofereceu o dedo à ave, conduziu-a de volta à gaiola e deu início às providências de praxe. Ao final da manhã, a casa estava já vazia: reconquistara seu habitual silêncio, sua paz bucólica, sua textura poética. Os humanos que por ali passaram, alguns sentidos, outros solenes, partiram levando consigo o corpo inanimado da mulher. O papagaio abriu então a gaiola, tal como fôra ensinado a fazer, e planou até a poltrona em que jazia o casaco de sua humana, seu cantinho preferido às tardes de leitura. E lá ficou, fechado em si, a bispar a rua. Por mais de trinta anos aquele papagaio dissera “Eu te amo” todos os dias, sendo, em todas as vezes, correspondido. Nada mais restava agora ser dito.
Precisamos tomar uma decisão, disse o marido à esposa. Ela sacudiu a cabeça, anuindo. Sentaram-se um defronte ao outro. Seus semblantes traziam sombras de cansaço e tristeza. Seus olhares buscavam algo distante no tempo. O namoro, o noivado, o casamento. Seguiram o roteiro de uma família tradicional: o início empolgado, de amor infinito, uma vida generosa, repleta de aventuras, cumplicidades, comprometimentos. Gozavam de uma felicidade quente e colorida. Até que vieram os filhos. Três varões. Daria tudo certo, repetiam um ao outro. Estavam preparados. Cumpriram todas as etapas do indispensável planejamento familiar. Atingiriam, pois, a plenitude existencial. Não demorou, porém, para notarem algo estranho, uma intercorrência jamais cogitada. Os rapazes demonstravam a cada dia traços de uma personalidade alterada, um caráter contaminado pela maldade e pela perversidade. Submeteram os três à terapia, ao metilfenidato, consultaram padres e especialistas. Os resultados? Decepcionantes. De onde viriam tais transtornos, tais perturbações? Genética? Traumas? Amizades? Da sociedade corrupta e violenta? Seria, talvez, algum teste divino? Viam a si mesmos como bons pais, legavam aos filhos excelente educação, acumulavam ótimos exemplos, eram carinhosos e atenciosos. Em que teriam errado? Não encontravam respostas. Dos psiquiatras, veio enfim o diagnóstico severo: não haveria cura para tais distúrbios. Medicações poderiam acalmá-los, é verdade, mas a experiência clínica acusava baixíssima adesão aos tratamentos. Só lhes restaria aprender a lidar com o problema, pensar estratégias paliativas, ao menos até os três atingirem a maioridade: a partir de então, o busílis passaria ao Estado. Assim o casal acompanhou, apreensiva e impotentemente, a progressiva degradação dos filhos: as arruaças, os crimes, as fugas, as prisões. Viviam ambos assustados: telefonemas anônimos nas madrugadas, recados ameaçadores na caixa de correio, a polícia a invadir a casa em busca dos rapazes. Calhou então dos três caírem presos ao mesmo tempo. Precisamos tomar uma decisão, disse o marido à esposa. Assim fizeram. Venderam todas as suas posses e se mudaram de cidade. Nem parentes, nem vizinhos, sabiam para onde o casal havia ido. Foi o que descobriram os filhos ao deixarem, um a um, o presídio. Minha mãezinha! Onde está minha mãezinha? Perguntava o caçula a quem lhe cruzasse o caminho. Jamais voltaria a vê-la. Sentados à beira de uma praia vazia de um balneário distante, marido e esposa acompanhavam o pôr-do-sol de mãos dadas. Ao lado deles, sobre uma esteira de vime, um livro de Nietzsche esmagava uma revista científica. Na linha do horizonte, um veleiro entregava-se ao destino enquanto o mar cantava canções de ninar. E o melhor: haveria peixe no jantar.
Lá estava ele, o barão, adequadamente instalado na primeira fila - a turma do gargarejo - benefício adquirido antecipadamente a preço lacrimoso, mas condizente com sua necessidade, qual seja, vencer o trauma de jamais ter assistido a um show de seu grande ídolo. Que avançava nos anos a olhos vistos: se haveria mesmo de ir à Macca, deveria apressar-se. Sentou-se sobre a sacola repleta de mimos distribuídos pela produção - cartazes, adesivos, imãs de geladeira, bonés, camisetas, enfim - compensações simbólicas face ao investimento despendido; e recostou-se na grade que separava o público do palco: urgia consolar o sentimental ciático, prova cabal de sua incompatibilidade física para tal aventura. Uma sombra de arrependimento manchou seu rosto: fora tragado pela excitação tal como um adolescente às vésperas do carnaval, e desse ato impulsivo - puft! – lá estava ele em meio ao baile, prestes a ser espremido, empurrado, violado em sua dignidade. O tempo das fantasias acabara, meu caro, sussurrou-lhe a perna dormente. Eis que os portões foram abertos ao público em geral: uma turba ansiosa, fissurada, destemida, pôs-se a correr em sua direção feito uma manada de touros de Pamplona, arrastando consigo o semblante de decepção face à percepção de que os melhores lugares estavam já ocupados. Homem primata: capitalismo selvagem. Ao menos ele era baixinho: não taparia a visão de ninguém. Levaria ainda três horas até o show começar, tempo que lhe permitiu conhecer a malta ao seu redor: o casal de idosos determinado a ir a todas as apresentações que o músico faria no país, o casal de jovens em lua-de-mel que passara a noite na fila da entrada, a mocinha autista que enrolava lenços umedecidos para se acalmar e cuja coragem de estar ali, sujeita ao som alto (ela usava abafadores), aos efeitos luminosos, aos fogos de artifício e ao delírio da plateia, comoveu-o deveras. Concluiu então que aquela era a sua turma, exagerada, empolgada, emotiva, em tudo semelhante àqueles alucinados que correram à Torre do Diabo em Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Num ímpeto tomou a sacola e distribuiu aqueles mimos a seus novos amigos. Era o que devia ser feito. Everybody gonna dance around tonight.
Entendeu-as, enfim. Primeiro chegou o Pedro, sem avisar, invadindo o apartamento tal como fazia nos bons tempos de faculdade. Depois, o Manolo, apelido carinhoso do Manuel. E por fim o Nuno, a mulher do padre: sempre o último a chegar. Eis então os quatro inseparáveis reunidos novamente. Foram, a certo tempo, bons companheiros, confidentes fiéis. A vida, contudo, acabou por afastá-los. O casamento, sobretudo. Ele, o anfitrião, foi exceção: manteve-se solteiro. Daí por que pôde analisar os eventos com algum distanciamento. Pois aquele reencontro, passadas as saudações e as recordações de estilo, evoluiu para uma espécie de terapia em grupo. Seus compadres estavam abalados: a alegria esfuziante, quase delirante, de outrora, ganhara tons acinzentados. Seus dias andavam de fato nublados. Os três divorciados. Os três arrasados. Os três perdidos. Ali jaziam personagens cujos projetos de vida faliram. Se é que trataram de projetar alguma coisa: aquela turma costumava tocar músicas de ouvido e com muita, muita improvisação. Gastaram horas a desafogar traumas, frustrações e angústias. Lágrimas vazaram e secaram. Expiada a tragédia, despediram-se. A manhã flagrou o anfitrião afundado na poltrona a meditar sobre a vida. Remoía uma tristeza honesta pelos amigos. Eram pessoas boas, corretas, bem-intencionadas. Não mereciam tal destino. E quanto a si? Costumava tomar sua vida por excessivamente pacata e solitária. Vinha-lhe vez ou outra fortes fisgadas de autocomiseração. Confrontado, todavia, com as desventuras de seus camaradas, sua vidinha soou-lhe deveras agradável. À percepção da realidade é indispensável o contraste. Que dizer das mulheres? Arrastava da juventude o ranço da rejeição: suas investidas amorosas foram todas repelidas. Restou-lhe a solteirice. Sentia-se injustiçado: embora o espelho não lhe revelasse um amante latino, via-se na média, quando não superior a certos gajos que, a par da dessincronia fenotípica e da vacuidade substancial, vingavam encontrar o amor. Agora, porém, havia uma explicação: elas, as mulheres, não o rejeitaram, ao contrário, pouparam-no. Ou mais do que isso, protegeram-no. Sorriu então, satisfeito. Entendeu-as, enfim.
Sei bem que soa estranho, inusitado, inacreditável mesmo, mas o fato é que namorei por um tempo uma menina que ronronava. Bastava receber um cafuné e voilà: começava a ronronar, tal e qual uma gata aninhada em nosso colo. Levei o assunto aos pais dela. Que riram, um tanto cinicamente, tomando o dito como uma metáfora romântica. Insisti. “Ela ronrona! De verdade!” Descrevi o processo tintim por tintim. Ninguém me levou a sério. Nem mesmo a menina que ronronava. Jamais alguém testemunhara tal evento. Desconheciam, em toda a humanidade, um precedente semelhante. À noite, remoendo dúvidas, sua mãe fê-la deitar-se em seu colo e encheu-a de cafunés, mas os ronrons não vieram. Estava provado: não passava eu de um romântico atoleimado. Mas comigo ela continuava a ronronar. Até que nos separamos. Cogitei se fazer meninas ronronarem não seria uma espécie de superpoder meu, mas nenhuma outra namorada ronronou em meu colo. Tratar-se-ia, a toda evidência, de uma condição particular daquela menina. São esses, pois, os fatos que vos trago, rogando-lhes perdão pela ausência de verossimilhança. Coube por destino que a menina que ronronava viesse a se casar com um grande amigo meu. Certa feita, numa festa, perguntei a ele, com jeitinho, bem de mansinho, se por acaso sua esposa ronronava. O moço encarou-me, seriamente de início, buscando talvez entender a piada, e depois desatou a rir, um tanto cinicamente. Soube assim que não: a menina não ronronava com ele. E por desconhecer no mundo outra mulher que ronrone, temo que essa capacidade esteja para sempre perdida.
Antônio Lobo Antunes confessou, em plena tenda principal da Festa Literária Internacional de Paraty, ter uma relação difícil com a prosa alheia: começo lendo e tenho logo vontade de corrigir. Falava ele, provavelmente, de questões de estilo, mas o argumento vale também a questões de substância. Aqueles que dedicam tempo relevante à literatura correm sério risco de resultarem críticos severos, especialmente quando sincronizam a experiência de leitura com a formação em teoria literária. O preço a ser pago por esse superpoder é a renúncia ao prazer da leitura descompromissada. E é essa leitura descompromissada, exposta ao assédio das paixões, a que, a meu ver, rende as melhores resenhas. Pois a boa literatura, como a boa arte, dialoga com o leitor em níveis emocionais e não apenas racionais. Livros que agregam conhecimento e nos conduzem à reflexão são ótimos e necessários à depuração do pensamento, mas os que assombram e comovem, que envolvem os leitores e os magnetizam, esses atingem o estado da arte, cuja descrição dispensa protocolos aristotélicos e abordagens estilísticas, preferindo, ao contrário, confissões intimistas acerca das respostas emocionais emanadas da leitura. Além disso, vivemos tempos militantes em que a própria academia tem se mostrado vacilante em assegurar a legitimidade do crítico literário, fragilizando conceitos antes inabaláveis como a presunção de objetividade e a morte do autor. O resultado é que considerações serenas, impessoais e abalizadas sobre uma produção politicamente tutelada acabam por desencadear desonestas e cansativas guerras ideológicas, a inibir a razão de ser da crítica técnica: a valorização da arte pela arte, independentemente do autor, da política e do mercado. Sou particularmente fã de ensaios críticos, tanto pelo virtuosismo intelectual como pela amplitude cultural que encerram, mas, dado o vale-tudo atual, reafirmo minha submissão ao império dos sentidos e envio meus aplausos às felizardas vítimas da síndrome de Stendhal que ousam compartilhar conosco suas impressões literárias.