Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pedro Lemos

Pedro Lemos

Setembro em estertor

Tenho andado ausente deste simpático ambiente, bem sei. Problemas mundanos deram as graças por aqui. E quando tudo parecia encaminhado, atacou-me uma infecção intestinal, intercorrência que, sabemos todos, arrasa nosso humor e nossa dignidade com a mesma intensidade. De bom, teve o show da Carminho, o último de seu tour atual. Seu virtuosismo acabou por hipnotizar a audiência, magnetizando-a inteiramente, algo bonito de testemunhar. O repertório incluiu canções brasileiras, como tinha de ser, e sua versão in concert de Carolina soou-me melhor do que aquela gravada em parceria com Chico Buarque. Em tempos grotescos, de eleições e queimadas, um espetáculo sublime chega-nos como um sopro de ar puro. O tempo extra de cama permitiu-me atualizar as produções de meus colegas blogueiros, seus dramas, suas neuras, seus poemas e suas dicas, especialmente as literárias (as quais me são de grande valia: meu ritmo de leitura é sofrível, cerca de quinze páginas por hora, razão pela qual selecionar adequadamente os livros contribui deveras à maximização do resultado; sem falar que costumo presentear amigos e parentes com livros: estar por dentro dos lançamentos facilita o processo). Chegamos à primavera no hemisfério sul. Há um cometa no céu, visível a olho nu. Foi-se o tempo em que terráqueos tomavam tal efeméride como mau agouro, uma espécie de arauto do apocalipse (ocasiões em que a economia mundial costumava aquecer, especialmente no campo eclesiástico). Hoje poucos reparam nos cometas. Deixo-vos sem saber se isso é bom ou ruim.

Pensata

Escrevo hoje sobre o Pensata, canal de Marcelo Madureira dedicado à literatura. Foram aproximadamente dois anos a resenhar livros sobre temas sortidos, embora sobressaíssem gêneros como história, filosofia contemporânea e tendência mundial. Recheadas de virtuosismo intelectual, as resenhas de Marcelo merecem destaque pelo seu peculiar fluxo de consciência, expressão de uma bem cultivada liberdade de pensamento que, ao final, acaba por valorizar a obra analisada. Dos episódios disponíveis, aquele narrando a história da família Rothschild, da qual ele descende, é particularmente divertido, com Marcelo a mesclar cenas autobiográficas com eventos geopolíticos em que tal dinastia teve papel relevante. O Pensata contava com produção profissional da Flocks e a profundidade das opiniões era manejada de forma carismática por Marcelo a fim de torná-las acessíveis; ainda assim, o projeto não vingou atrair público suficiente para cobrir os custos. Shoganai. Numa última tentativa de melhorar os índices de audiência, Marcelo convocou seus mais fiéis seguidores para conversar ao vivo consigo: fui um dos primeiros a participar e me atrevi a falar, vejam só, sobre Bocage. As lives não permitiram salvar o empreendimento, mas trouxeram insights interessantes e geraram muitas, muitas gargalhadas. Quem sabe o Brasil seja agraciado com sua primavera iluminista e o Pensata retorne assim à ativa? Enquanto isso, Marcelo dedica-se à análise política no Não é bem assim, programa capitaneado por Dora Kramer.

The Midnight Special

Tenho me dedicado a garimpar o canal do The Midnight Special Show no YouTube. Trata-se duma série televisiva americana veiculada nos anos 1970, com foco em música e sketchs cômicos. Os episódios vêm sendo disponibilizados em ordem cronológica, mas os gestores têm organizado playlists com recortes por artista. Eis um tipo de show que desperta em mim certa nostalgia em relação a tempos que não vivi, talvez por revelar o início da carreira de artistas que, anos depois, acabariam por embalar a minha adolescência (Peter Frampton, Steve Miller, Elo, Genesis, Fleetwood Mac). Eram tempos analógicos e valvulados; tempos ecléticos e cheios de improviso; tempos que incentivavam a livre experimentação e desprezavam pesquisas mercadológicas. Um dos pontos a destacar neste programa é a sua diversidade: é possível assistir, num mesmo episódio, bandas de hard rock, folk e soul, sem embargo das edições especiais, como as dedicadas às oldies, à country music e às bandas inglesas. O fato das apresentações serem ao vivo (sem dublagens) atraía a cumplicidade da plateia e viabilizava encontros inusitados, como aquele entre Chuck Berry e os Bee Gees. Ficamos também conhecendo artistas interessantes que, por um motivo ou outro, não chegaram até nós (The Treasures, Judi Pulver). Eu bem gostaria de ter ido num daqueles shows (especialmente naquele em que Genesis tocou The Musical Box). O canal disponibilizou até agora 71 de um total de 350 episódios: ainda há muito para maratonar.

Faca

O ano era 2010. Bem acomodado na plateia da tenda principal da Festa Literária Internacional de Paraty, assistia eu à entrevista de Salman Rushdie, que, naqueles dias, encontrava-se em turnê mundial para a promoção de seu romance Luka e o Fogo da Vida. Não havia, aparentemente, maiores preocupações em relação à sua segurança: Salman demonstrava estar à vontade entre os seus, tanto que, finda a sessão e acompanhado de seu filho Milan, atendeu a uma longa fila de autógrafos. Quem o visse circular por Paraty, desfrutando das belas paisagens e recebendo intermináveis saudações, jamais imaginaria o drama que haveria de enfrentar doze anos depois. O panorama é assaz conhecido: em 12 de agosto de 2022, no anfiteatro do Instituto Chautauqua (NY), um jovem americano, filho de pai libanês, esfaqueou Salman Rushdie diversas vezes. Tratar-se-ia, a princípio, dum eco anacrônico da fatwa decretada por um conhecido terrorista islâmico, hoje falecido. Salman sobreviveu à agressão, felizmente; e sendo ele um escritor, nada mais natural que buscasse expiar o trauma através de um livro. Em Faca (2024), temos um relato direto, em primeira pessoa, da violência a que o autor foi submetido, do contexto que a antecedeu e das provações que suportou durante sua recuperação. A narrativa intimista nos convida a abandonar a visão jornalística dos fatos, distanciada, confortável, para nos tornarmos testemunhas presenciais do drama. Sobressai dessa aproximação um resumo, bem documentado por Salman e sua esposa, do sistema hospitalar americano, notadamente de seu atendimento de emergência: a realidade das enfermarias, a dificuldade dos diagnósticos, o drama dos tratamentos, a burocracia financeira, a complexidade da reabilitação. Seguimos o autor em sua maratona de procedimentos médicos necessários ao seu restabelecimento, assim como em seu esforço para manter a sanidade mental durante o período de internação, isso tudo com boas pitadas, vejam só, de humor. Mas Faca vai além do binômio trauma-superação. Salman busca intelectualizar o evento, agregando ao processo, possivelmente por cacoete, um pouco de realismo mágico (“Sua mão passa através do espelho e aí o restante de seu corpo passa também”). O resultado é um show de erudição e cultura universal (até Machado de Assis é citado, e pensando bem, por que não?), além de insights sagazes como o paradoxo do milagre (ele, que não acredita em milagres, vê-se obrigado a tomar sua sobrevivência como algo miraculoso), o paradoxo político (ele, um militante pela liberdade de expressão, ser obrigado a testemunhar a apropriação desse conceito por grupos extremistas) e o paradoxo espacial (ele, que enfrentou a morte num condado bucólico, reencontrou a paz numa metrópole violenta). O capítulo mais impactante do livro talvez seja aquele que encerra o diálogo fictício entre Salman e seu agressor: através dessa conversa inventada, conhecemos um pouco da história do criminoso e das frustrações que estariam, supostamente, na raiz de sua radicalização. Salman não nos oferece conclusão alguma acerca de seu algoz: pode tratar-se dum sujeito acometido de uma forte idiotia, patológica ou auto-infligida (dessas assaz apreciadas por gurus, déspotas e manipuladores em geral), ou de um criminoso comum, interessado na fama ou nas recompensas prometidas àquele que cumprisse a fatwa (“Ou pensou que conseguiria escapar e viver como fugitivo?”). O fato é que tal indivíduo materializa algo ruim, e não apenas do ponto de vista pessoal, mas, igualmente, social (“Se transformam você em um objeto de ódio, haverá pessoas que te odeiam”). Do diálogo é possível extrair também uma espécie de roteiro intelectual visando alertar indivíduos susceptíveis à radicalização ideológica: Salman apela a clássicos do cinema, da literatura e da filosofia na (vã) tentativa de firmar contrapontos a dogmas que, embora vencidos e flagrantemente contraditórios, vingam sequestrar a mente de uma legião de jovens. Seria possível, neste contexto, tomar Faca como um libelo em defesa do livre pensamento. É por demais cansativo repetir o óbvio, mas as evidências demonstram que o empenho tem sido insuficiente: abdicar da autonomia intelectual significa regredir a tempos medievais, tempos estes em que o acesso ao conhecimento era limitado a uma parcela minúscula da população, e o questionamento a dogmas, severamente punido. Nossa prosperidade como espécie depende de nosso diferencial evolutivo - o pensamento – e, como pensamos através de palavras, a condenação de um romancista à morte representa um autoflagelo. Como o próprio ataque a Salman demonstrou, não basta simplesmente defender a liberdade de consciência: é preciso assegurá-la. Tudo o que um tirano almeja é uma população de não pensantes. Deixando para trás o prontuário médico, a resiliência e resistência do autor, sua escrita direta (diferente de seus romances), sua cultura invejável, seus apontamentos filosóficos (“Direi apenas que não seríamos quem somos hoje sem as calamidades de nossos ontens”), o libelo em defesa do livre pensamento, enfim, toda a reflexão relacionada ao ato de violência, Faca é, mais do que tudo, um livro sobre o amor. Salman ingressara na terceira idade aceitando um ocaso solitário, e com pesar acompanhava as maiores mentes de sua geração partirem uma a uma, quando então reencontrou o amor: apaixonou-se por uma poetisa e foi por ela correspondido. Casaram-se. Viajaram à Itália em lua-de-mel. Vivenciava ele, enfim, sua plenitude: a carreira ia bem, a saúde ia bem, o coração ia bem. A obra de sua vida ganhara uma bela restauração. Eis que veio o ataque. Do qual emergiram personagens que Salman sempre preferiu manter discretos: sua família, seus amigos e, especialmente, sua esposa, Rachel Eliza Griffiths. Ao mesmo tempo em que narra seu tormento e elabora sua percepção dos fatos, Salman ressalta a corrente de amor que o cercou durante todo o período: os estímulos encorajadores de médicos, enfermeiros e terapeutas; as mensagens carinhosas de amigos e fãs; o abraço reconfortante de seus familiares; a dedicação inabalável de sua esposa. Por mais paradoxal que soe (e isso numa obra em si repleta de paradoxos), o amor perpassa todos os capítulos do livro, e dele resultam passagens tão bonitas que beiram à pieguice (“Nosso amor não precisa de expressão sentimental para existir”). Facas também talham corações em troncos maltratados. Passaram-se pouco mais de dois anos desde que Salman Rushdie foi atacado no anfiteatro do Instituto Chautauqua. Seu agressor enfrenta acusações por terrorismo e tentativa de homicídio, e corre o sério risco de passar o resto de sua vida na cadeia. O escritor, por sua vez, continua vivo, recupera-se a contento, sente-se amado e acolhido. E, para nossa sorte, mantém sua escrita assaz afiada.

Faca.jpg

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub