Fui aos fados, quando em Lisboa. Organizei mesmo a viagem em torno deles. Hospedei-me num airbnb escondido na Mouraria, praticamente vizinho ao Largo da Severa, ponto de uma tradicional casa de fados lisboeta que tratei de conhecer logo que cheguei à cidade. Paguei a taxa de casal, embora viajasse solteiro (o restaurante aceitava reservas para duas pessoas no mínimo), mas tenho comigo que o investimento valeu a pena. Percebi o quão pouco, ou quase nada, sabia eu sobre fado. Embora tenha por foco turistas estrangeiros (era eu o único cliente a falar o português naquela noite), o ambiente soou-me autêntico, tanto na decoração quanto no cardápio. Sobre os músicos, que dizer? Sensacionais. Helder Moutinho foi preciso no repertório, e Francisco Rosa levou uma moça às lágrimas, de soluçar mesmo, com seu Fado Falado. E ela sequer entendia o idioma. Foi uma rápida, porém densa, imersão na boemia lisboeta. Havia anotado outras dicas relacionadas ao fado, mas não sobrou tempo. Tudo bem. Lisboa está logo ali.
Enfim chegou o professor. Atrasava-se vez ou outra, pois além da docência, exercia também a magistratura. Sim, era velho. Desses de cabelos ralos e caiados. Mas esbanjava saúde. A certa altura, pediu licença para retirar o paletó: fazia de fato muito calor. Antes de dispensar a turma, desabafou: aquele seria seu último dia como docente. E também como juiz. Completara setenta anos, idade em que os servidores públicos eram obrigados a se aposentar. Parecia resignado, forçando para dar ao semblante alguma sombra de bom humor. Terminou por convidar a todos para uma celebração. Foi uma noite cercada de melancolia, com respeitosas pausas de silêncio subitamente quebradas por anedotas deliciosas, registros de uma vida dedicada ao Direito e à Justiça, enfim, aquele tipo de história que costumamos ouvir em velórios à guisa de paliativo à dor do luto. Reencontrei-o inúmeras vezes nos fóruns da vida, já como colega de profissão: ele simplesmente não conseguia parar, mesmo usufruindo de dois proventos de aposentadoria. Talvez não soubesse fazer outra coisa, ou, mais precisamente, não sentisse prazer em outra coisa. E sendo bom no que fazia, acabava por nos roubar os melhores clientes. Shoganai. Agora há pouco uma amiga apresentou-me um dilema: fôra convidada a assumir um cargo de grande responsabilidade, tarefa que ela sentia-se vocacionada a exercer, mas que implicaria no adiamento de sua aposentadoria. Quais os seus planos à inatividade, perguntei-lhe. E como não havia nenhum, o busílis estava solucionado. Biologicamente, os homens atingem seu apogeu aos vinte anos, e as mulheres, em torno dos trinta. Restaria depois disso uma longa preparação à morte. Mas não pensamos desta maneira. À meia-idade, encaramo-nos ao espelho e concluímos que, com um pouco de vontade, poderíamos até escalar o Everest. Assim como há abordagens voltadas à orientação profissional, há também terapias que ajudam profissionais em final de carreira a planejarem sua transição à aposentadoria. Encontros com a realidade podem ser traumáticos, enfim. Foi com este sentimento que acompanhei a decisão de Joe Biden de renunciar à reeleição. Não pretendo fingir ingenuidade e desprezar as pressões maquiavélicas que incidem na luta pelo poder, mas meu foco foi de fato a dignidade humana, a submissão de nossas vontades e fantasias ao inevitável desfazimento psicofísico (e, em última análise, à própria morte), experiência desgastante que aquele senhor viu-se obrigado a digerir em transmissão direta para todo o planeta. Estamos vivendo mais e melhor. Há que se planejar para melhor gozar o restinho da viagem. E, tanto quanto possível, procurarmos ser mais carinhosos com nossos futuros idosos.
Dia desses assisti A Cantora Careca, uma das primeiras peças do dramaturgo e patafísico (ou dramaturgo patafísico, como queiram) Eugène Ionesco, trazida à baila por uma tradicional companhia de teatro local. O texto parece de fato dialogar com o momento atual, ao menos aqui no Brasil: ao mesmo tempo que denuncia o lado grotesco de nossas elites, expõe os diálogos absurdos que infestam nossa intelectualidade e o dadaísmo alcoolizado emanado das redes sociais, risíveis em sua essência, trágicos em suas consequências. A peça é ótima, e consegue extrair do público gostosas gargalhadas, sem falar que duas das atrizes são minhas colegas de adolescência, fato que desencadeou em mim muitos fluxos nostálgicos. É bom testemunhar a vida permitindo a realização de nossas vocações.
Barão. Assim respondia quando me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse. “Quero ser barão!" Eu não falava a sério, obviamente. Tornar-se barão é como virar vampiro: algo potencialmente impraticável. Primeiro, porque o Brasil é, supostamente, uma República, sistema em que todos são, ou deveriam ser, iguais perante a lei. Segundo, porque não se decide ser barão: ou você herda o título, ou é agraciado com ele. O fato é que, em teoria, o gozo de um título nobiliário pressupõe uma gama de qualidades pessoais e muito, muito comprometimento institucional, o que nem sempre é levado em conta pelos alpinistas sociais. Mais fácil seria vivar vampiro: basta, para tanto, resultar eleito a algum cargo político ou, àqueles mais introvertidos, tornar-se magistrado. Soa engraçada, mas tal anedota esconde traços de perversidade e sociopatia. A quantidade prodigiosa de privilégios concedidos à elite do funcionalismo brasileiro parece violar o princípio basilar de qualquer república: o de que todos são iguais perante a lei. Criaram, assim, uma espécie de nobreza bananeira, macaqueando monarquias antiquadas naquilo em que têm de pior: o narcisismo, a extravagância, a irresponsabilidade, o corporativismo, o parasitismo, a arbitrariedade, a atitude grotesca, cafona e infantil, a sabujice ao dinheiro e ao poder. Vejamos um exemplo: na década de 1990, nossa Câmara dos Deputados instituiu um auxílio em dinheiro a parlamentares que não usufruíssem de apartamentos funcionais em Brasília. Trata-se, aparentemente, dum privilégio: custear a própria moradia é, afinal, um dever imposto a todo brasileiro. Apesar da aparente violação ao princípio republicano (aquele de que todos são iguais perante a lei), os magistrados, defendendo a paridade entre os vencimentos do legislativo com os do judiciário, estenderam a si tal mimo. Seria o caso do Ministério Público demandar contra essa aparente imoralidade; todavia, os nobres representantes do parquet resolveram aderir eles próprios ao butim. Tudo com efeito retroativo à data da instituição do auxílio pelo legislativo. A coleção de privilégios à nova nobreza brasileira é o tema enfrentado por Bruno Carazza em O País dos Privilégios, livro que esmiuça os arranjos políticos patrocinados por carreiras do serviço público almejando a conquista de benefícios exclusivos. No fim das contas, o Brasil acaba por gastar cerca de 13% do PIB com a remuneração de servidores, o que, além de contribuir à desigualdade social, acaba por gerar pressão tributária e inflação. Ao que parece, órgãos que deveriam fiscalizar uns aos outros em defesa da moralidade administrativa acabaram por se associar em sucessivos ataques aos cofres públicos, numa espécie de festim diabólico. Não pense o leitor que tais conclusões hão de causar constrangimento aos beneficiários: honra e dignidade são valores mortos no Brasil. E não espere também reações da plebe rude. Nada há de ocorrer. O Brasil encontra-se sequestrado pela polarização política, e os senhores feudais que controlam cada polo mantém seus rebanhos coniventemente presos em seus currais. Fica apenas o registro para futuras referências.
Foram duas semanas de frio e chuva persistentes aqui na minha terra. E ao partir, o clima ruim, aproveitando-se da queda em minha imunidade, deixou-me um resfriado de presente. O humor, que já andava capenga, arriou de vez. São os desafios da nova era, tempos de mudanças climáticas, a exigir a correspondente adaptação. Não falo apenas das grandes catástrofes, mas também das intercorrências cotidianas. Vejam que estes dias chuvosos acumularam muito mais do que água: trânsito caótico, estradas esburacadas, shoppings lotados. Supermercados registraram falta de alguns itens, doenças pulmonares proliferaram. Ninguém morreu por conta da chuvarada, felizmente, mas o evento representou um tremendo teste de paciência à sociedade em geral: mesmo otimistas patológicos ousaram reclamar. E como tais efemérides tendem a se fazer cada dia mais presentes, seria prudente pensarmos em medidas a fim de mitigar seus efeitos nocivos. Improvisar não me parece uma boa ideia: tempos estressantes costumam testar nossos limites psicofísicos, a atrapalhar nossa cognição.
A indústria de reciclagem de lixo vem salvando a humanidade do colapso total. Ou pelo menos, tem-no adiado. Pois não dispomos de espaço suficiente para acomodar todo o lixo que nosso consumismo produz. Profissionais da limpeza pública são essenciais à nossa saúde e fazem jus ao devido reconhecimento. Os profissionais da indústria de reciclagem ideológica, por sua vez, não merecem os mesmos aplausos, a meu ver. Não é raro que um produto com potencial de mercado acabe por mofar nas prateleiras; quando isso ocorre, o empresário recorre a especialistas em branding, que estudam o caso e forjam soluções à sua adequada reapresentação. Mas veja que tais especialistas trabalham com uma premissa essencial: a de que o produto tenha efetivo potencial comercial. Basta ver a relação quase inesgotável de itens de sucesso que, sem salvação, encontram-se hoje fora do mercado. No âmbito das ideologias acontece algo parecido. Centenas de milhares de dogmas circularam entre nossas civilizações, e a esmagadora maioria deles foi relegada ao esquecimento. Ou seja, alguém elaborou um produto ideológico e o lançou ao mercado, que, por sua vez, acabou por rejeitá-lo, seja por falta de substância, por falha na apresentação, ou mesmo devido a inovações supervenientes. Fui há pouco apresentado a um artigo de Mark Lilla tratando de uma corrente ideológica chamada “pós-liberalismo católico”, a qual rejeitaria os “fundamentos intelectuais do individualismo liberal moderno” e defenderia a imposição de “limites morais necessários à felicidade humana”. Isolando cada parte deste diversionismo intelectual, vemos tratar-se de mais um grupo conservador de viés anti-iluminista que busca superar a notória rejeição mercadológica oferecendo a um antigo produto dogmático uma apresentação renovada. O problema é que se trata de um daqueles produtos sem viabilidade comercial (veja que “limites morais necessários à felicidade humana” era exatamente aquilo que defendiam os fanáticos religiosos contra os liberais iluministas). É inacreditável perceber gente entusiasmada em reciclar essa espécie de lixo obscurantista, um tema que não gozaria de relevância alguma, não fosse a força política que setores neopentecostais têm conquistado nos USA (que encontrou seu ápice na eleição de Donald Trump), atraindo com isso o interesse de uma gama diversificada de grupos reacionários. Na falta de elementos novos a amparar tal radicalização, esses grupos lançam-se à insalubre tarefa de vasculhar os aterros sanitários do pensamento humano a fim de encontrar dogmas passíveis de serem reciclados. Santo cansaço.
Não devemos nos importar com a opinião que os outros têm a nosso respeito. Eis um mote corrente na sociedade e, especialmente, nas redes sociais. Sabemos, contudo, que não funciona assim. Somos, afinal, capazes de influenciar e sermos influenciados pelas pessoas, e isso inclui a interpretação que elas fazem acerca de nós, e nós, delas. Devemos manter nossa integridade, mas sem descuidar da opinião alheia, tanto mais quanto maior for a possibilidade de tal opinião afetar a nossa vida. O que se extrai da observação cotidiana é que a independência social não nos é dada de graça, isto é, não se trata de um direito natural, ao contrário, deve ser conquistada, seja pelo conhecimento (independência intelectual), seja pelo dinheiro (independência financeira). Quanto mais próspera e sábia for uma sociedade, mais independência e liberdade terão seus indivíduos. O fato é que pessoas que exercem algum tipo de poder têm condições de sabotar nossas ambições apenas porque não foram com nossa cara. E não devemos desconsiderar a força dos preconceitos: há que se estar preparado para enfrenta-los. Que o digam os judeus. A comunidade judaica, assim como a maioria das comunidades mundo afora, é diversificada, com ampla circulação de pensamento e visões políticas diametralmente opostas, mas o antissemitismo acaba por comprimir toda essa universalidade num único caldeirão. O que justifica a criação do estado de Israel não é a opinião que a comunidade judaica tem acerca de si própria, mas a visão que os outros têm dela. Os nazistas definiram quem era e quem não era judeu com base na ascendência imediata. Hoje temos a pesquisa genética, e por mais que ela não sirva como marcador cultural (vide a noção de meme de Richard Dawkins), nada impede que sociopatas a utilizem como critério em novas leis de pureza racial. A essa altura, é provável que um ou outro leitor queira saber minha opinião acerca do conflito entre israelenses e palestinos. Pois bem, não fingirei aqui compreender as nuances daquela selvageria: remeto-vos, desta forma, aos especialistas. Suspeito, porém, que poucos atores políticos em exercício naquela região estejam honestamente preocupados com seu respectivo povo. Prevalece lá a ética maquiavélica, chamada hoje de realpolitik, a despeito de toda evolução na seara do direito internacional. Inúmeros são os exemplos de governantes populistas manipulando despudoradamente seu povo a fim de atingir objetivos mesquinhos, não raras vezes demandando o sacrifício derradeiro. Questões religiosas, e mesmo o sofrimento humano, são corriqueiramente utilizados como cortina de fumaça ao verdadeiro interesse em jogo: o poder (e os privilégios econômicos dele decorrentes). O mesmo se aplica a seus apoiadores, que gastam seus dias a refinar cálculos políticos nos quais o sofrimento humano é excluído. Vejamos o caso do Brasil: o governo Lula toma partido dos palestinos, mas enganam-se os que acreditam que o faça por empatia àquele povo (nem mesmo os brasileiros, imersos em toda sorte de violência institucional, são merecedores de tal sensibilidade). Ainda que se reconheça a antiga aliança entre movimentos de esquerda e líderes palestinos, a posição brasileira neste caso parece ser uma resposta ao apoio explícito de Netanyahu a Bolsonaro, parte de uma cadeia de eventos que inclui o conhecido episódio em que um porta-voz israelense acusou o Brasil de ser um anão diplomático. Vem-me à memória o documentário Promessas de um novo mundo (2001), que colocou em contato crianças palestinas e israelenses a fim de que discutissem suas realidades. Àquele tempo, a extrema-direita acumulava aliados em Israel, assim como o Hamas consolidava seu poder em Gaza. Como estarão aquelas crianças?
O menino que habitei na infância era inconstante: às vezes querido, às vezes terrível. Lembro de pelo menos duas ocasiões em que ele foi conduzido de volta à sua casa por policiais (haveria de sofrer menos se o tivessem levado ao reformatório, dadas as penas do código familiar); em seus diários daquela época, sua irmã lhe dedica adjetivos nada elogiosos: grosso, estúpido, insuportável; seus registros escolares acusam expressões semelhantes, embora cercadas de prudentes eufemismos: difícil, incontrolável, insubordinado. Sei também que odiava tomar banho, era um mentiroso vocacionado e, quando visitava a casa de alguém, apreciava esconder objetos (que seriam encontrados, com sorte, meses depois). Sua controvertida personalidade era potencializada quando somada às de seus amigos: vagavam pela cidade a aprontar traquinagens, a mais famosa delas, montar falsas macumbas no quintal dos vizinhos. Do bando, era o mais destemido, sendo exímio escalador de árvores e muros. E ainda surfava. Ninguém mexia com ele, nem mesmo os meninos mais velhos. Quem direito o reparasse, veria escorrer de seu semblante sombras de psicopatia. Mas tinha já àquele tempo severas preocupações ambientalistas: dizem que saía pelas matas a soltar passarinhos capturados em arapucas (que acabavam todas despedaçadas). Aprendia fácil, apresentava curiosidade patológica e expressava invejável agilidade mental (mal empregada, é verdade). E, sobretudo, era fã do Magal, sua maior virtude. Chegada a adolescência, muita coisa mudou. Descobriu-se introvertido, honesto, educado e disciplinado. E estudioso, mas só quando precisava. Seu raciocínio ficou mais lento, observador, e sua conduta, cautelosa. Sua homeostasia era constantemente testada pela ansiedade crônica, diagnosticada somete na fase adulta, o que dificultava sua concentração. Ocorreram também alguns traumas, relevantes, sem dúvida, mas não determinantes. Fatores como desenvolvimento cerebral, alterações hormonais e influências ambientais, notadamente as novas amizades que vingou cultivar, parecem ter contribuído com mais força aos ajustes em sua personalidade. Não restou muito daquele miúdo em mim. Quando o visito, o que é raro, vêm-me às vezes sentimentos de terror e piedade, tal uma tragédia grega, e em outras, longos acessos de riso. Aquela aquarela está a desbotar rapidamente: a nostalgia das fotografias não sobreviveu à dura realidade. Enfim. É muito difícil julgar o mérito de uma vida considerando apenas extratos dela. Bem medido e bem pesado, eu até que gostaria de ter sido seu amigo. Mas não colocaria minha mão no fogo por ele.
Fôra finalmente promovido. Gozava, pois, do direito de ocupar uma sala no andar superior. O diretor o intimou: era hora de subir. Mas ele evitava consumar a mudança. Estava assaz preocupado com a funcionária que recentemente chegara ao setor. Caíra de amores por ela. Magrinha, meiga, vaporosa, sua visage exótica combinava perfeitamente com o estilo rockabilly com o qual costumava se vestir. E que perfume inebriante era aquele que usava? O recinto tinha agora o seu sachê. Não que ela houvesse sugerido algum interesse. O comedimento institucional se impunha. E ele era um gestor: não caía bem ficar de gracinhas com suas subordinadas. Mas trocavam olhares. Ela parecia mesmo lhe sorrir com os olhos. E todos sabemos que os olhos não mentem. Além do que fazia-lhe deferências, mostrava-se prestativa, buscava sempre agradá-lo. Era uma coisa sutil, tipo de segredo que só os românticos são capazes de desvendar. No mais, observavam, ambos, os devidos protocolos de conduta. Tanto que ela evitava aproximar-se demasiadamente quando a ele recorria a fim de sanar alguma dúvida. E eram muitas as dúvidas. Aquela moça entendia pouco da função à qual foi designada. Careceria de tempo, muito mais tempo, para que ela dominasse satisfatoriamente as tarefas. Isso o preocupava. Sem um cúmplice que a amparasse, acabaria demitida. Era hora de subir. Ele precisava agir. Urgia encontrar uma maneira de manter o contato com ela. Haveria de protege-la mesmo à distância. E depois, quem sabe? O namorico entre funcionários de fato não era estimulado, mas exceções ocorreram no passado. A esposa do diretor, por exemplo, fôra secretária da presidência. Seriam discretos, enfim. Dariam um jeito. Tomou um de seus cartões profissionais, acrescentando nele seu telefone pessoal. Gastou um tempo pensando no que dizer à princesa; em seguida, pôs-se a circular entre os escaninhos, buscando-a, mas ela havia saído. Deteve-se finalmente diante de sua escrivaninha. Notou que a moça esquecera aberta a tela de seu computador. Não resistiu a dar uma espiada. Foram pouquíssimos segundos, quase um relance, o suficiente, porém, para que entendesse aquilo que gritava para ser entendido. Amaçou então o cartão e o atirou ao lixo. E pôs-se incontinenti a encaixotar suas coisas. Era mesmo hora de subir.
Frequentei por muito tempo um grupo de astronomia que havia (e ainda há) na minha cidade. Comparecia fielmente às reuniões semanais, fiz os cursos regulares e participei como pude dos eventos externos. Mas, com o passar dos anos, fui perdendo o ânimo. O problema é que a região em que vivo não propicia boas condições a tal hobby: cerca de 70% das noites apresentam céu encoberto, há muita maresia e neblina, e a poluição luminosa limita a experiência. Em outubro de 2003, a cidade sofreu um blackout por quase três dias: apesar dos graves transtornos, foi uma oportunidade ímpar aos amantes da astronomia, que gozaram de duas noites com condições ideais para esquadrinhar o céu. De lá para cá, a situação piorou deveras: está cada dia mais difícil encontrar um cantinho escuro por aqui. Organizamos certa feita uma caçada a um cometa que estaria visível ao anoitecer, a uns 20 graus do horizonte: estudamos o melhor local para montar os telescópios, e quando chegamos lá, uma forte maresia impediu a observação. Tempos depois viajei até minha cidade natal para caçar outro cometa, e embora tenha obtido sucesso, vi-me cruelmente atacado por uma esquadrilha de mosquitos. E assim, com os eventos astronômicos convertendo-se em programas gastronômicos, acabei por jogar a toalha. Hoje contento-me em ser um entusiasta em astronomia, acompanhando as novidades através de revistas e canais especializados. Engana-se quem pensa que astronomia é um hobby caro: muita coisa interessante pode ser observada a olho nu (constelações, chuvas de meteoros, alinhamentos planetários, satélites), bastando, para tanto, um recanto escuro em sua região. Binóculos modestos permitem investigar alvos como aglomerados estelares, nebulosas escuras, estrelas binárias e cometas com magnitudes menores. E pequenos telescópios infantis conseguem mostrar Saturno (e seus anéis), Júpiter (com suas quatro luas maiores) e alguns detalhes da Lua. Não entendo a razão da astronomia não fazer parte da grade curricular do ensino médio no Brasil: é uma das mais antigas áreas de conhecimento de nossa civilização, reúne em torno dela várias disciplinas e representa uma das raras matérias, talvez a única, a unir ciência e poesia. E é muito, muito divertida.