Segue um exemplo daquilo que os jovens de hoje chamam, pejorativamente, de textão. Textão é uma espécie de terapia psicológica baseada na palavra, na qual, ao contrário da psicanálise, a conversa dá-se entre o paciente consigo mesmo, ou seja, um recurso em que id, ego e superego são estimulados a debater sobre determinado tema até chegarem a um consenso, consenso este estruturado para vir a público na forma dum vacuidoso desabafo. E assim fazemos do leitor um terapeuta. Vamos então ao textão. Os articulistas de uma tal revista eletrônica costumam acusar os defensores da eutanásia, do abordo e da liberação das drogas de promoverem a cultura da morte. Ocorre que o antônimo a tal cultura da morte não seria a cultura da vida, como sugerem, e sim a cultura do sofrimento. O dogmatismo costuma patrocinar reduções silogísticas, mas em casos como eutanásia, aborto e drogas, a resposta não admite simplificações. Vemos, por exemplo, tratamentos contra depressão e/ou ansiedade aliviarem o sofrimento da maior parte dos pacientes, mas uma parcela considerável deles não responde a qualquer terapia. Se drogas hoje ilícitas ajudarem essas pessoas a superar o sofrimento, por que não admiti-las? E que dizer desses pacientes que, sem o devido diagnóstico, são obrigados a suportar sozinhos um sofrimento desumano? Acabam por empurrar os dias com a barriga, levando uma existência com altos e baixos, apelando aos bares e, em casos extremos, às cracolândias. A questão aqui é definir a estatuto jurídico em que esses cidadãos devem ser enquadrados (se pacientes ou criminosos) e, em consequência, qual serviço público deve lhes ser oferecido (o sanitário ou o prisional). Fico a imaginar agora os leitores puritanos, verdadeiras rochas emocionais repletas de certezas inabaláveis, a levantar seus dedinhos acusadores. Remeto-vos ao interessante O Demônio do Meio-dia, livro de Andrew Solomon que aborda a depressão sob o ponto de vista dum paciente. Andrew era um sujeito desses que pensava ser uma rocha emocional, até que veio a depressão, e além de ver-se obrigado a enfrentar os efeitos perversos dessa doença, viu-se também obrigado a aceitar a fraqueza humana a qual ele se via imune. A questão das drogas tem sua periculosidade potencializada pelo fato de não se saber ao certo a composição dos produtos e de seu consumo dar-se clandestinamente. Quando usuários tiverem à disposição produtos de qualidade controlada e puderem consumi-los com alguma orientação, então estaremos falando sobre saúde pública de forma séria e não panfletária. A angústia da morte é culpa de nossa reprodução sexuada, cuja compensação, bem sabemos, é o prazer. Há quem passe a vida vendendo aos humanos superstições voltadas a acalmar o medo da morte: a briga pelo monopólio desse mercado consuma ser selvagem. Certo que tais superstições podem funcionar para muitos (o tal efeito placebo), mas não para todos. Boa parte dos humanos recorre a formas sortidas para obter prazer. É nesse ponto que entram as drogas: elas parecem ser prazerosas. Dado todos os efeitos nocivos do estresse, não seria o caso de nossa sociedade tolerar as drogas, mitigados os riscos pela informação e pela assistência? O caso foi bem apresentado por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. Aldous intuiu o papel chave das drogas no futuro da humanidade. Vivemos mais e melhor por conta delas, mesmo com nossa gigantesca diversidade cultural: drogas têm eficácia universal, ou seja, ignoram peculiaridades culturais. O correspondente atual ao Soma huxleyano seria o Clonazepam, droga que, apesar de exigir cuidados em sua prescrição, é barata e eficaz à mitigação das crises de ansiedade. Ninguém gosta de tomar remédio: é, sobretudo, uma confissão de fraqueza; mas se as drogas servem para aliviar o sofrimento, por que não admiti-las, também, para estimular o prazer, nosso grande triunfo contra a morte? Pedir a uma pessoa que continue a enfrentar o sofrimento em nome de um dogma é tão vil quanto induzi-la a morrer por ele. Não há regras sobre como viver ou morrer. A vida não é um fato ordenado, asseado, imaculado, ao contrário, a vida chacoalha, tem altos e baixos, é imprevisível e volúvel. Oxalá morrêssemos todos dormindo tranquilamente, em paz, depois de uma existência plena, feliz, saciada. Mas, infelizmente, há imprevistos, muitos dos quais deixam sequelas doloridas. A turma do cilício costuma alegar que nem todo sofrimento é ruim: carregaria ele um certo teor pedagógico. E fundamentam esse argumento recorrendo a uma série de exemplos de resistência e martírio. Ocorre que tais exemplos repousam em dogmas de fé (o que, em termos pragmáticos, equivaleria em tomar a fé como um ato de tortura), e a fé está inserida no âmbito privado, individual, e não público, coletivo (este o âmbito da saúde pública). O religioso resiste em aceitar a eutanásia pois ela violaria uma das principais virtudes teológicas: a esperança. Seu castelo imaginário foi construído sobre toneladas de esperança: a esperança no milagre, a esperança na vida eterna, a esperança no paraíso, a esperança na ressurreição. Mas soa obsceno defender a natureza pedagógica do sofrimento desprezando as condições individuais de cada um, seus limites, seus traumas, suas dores. É como defender a palmatória. A mesma lógica se aplica à despenalização do aborto. Aqueles que inserem o aborto na tal cultura da morte ignoram o sofrimento enfrentado pelas mulheres, pressupondo haver escolhas quando de fato não há nenhuma (e a prova mais evidente disso são os milhares de processos judiciais envolvendo pensão alimentícia, reconhecimento de paternidade e demissão por gravidez). Optar pelo aborto não deve ser uma decisão fácil à mulher, ao contrário, pressupõe um processo repleto de sofrimento: mandá-la à prisão seria, a meu ver, puni-la duas vezes pelo mesmo fato. Enfim. Negar os fatos em favor de dogmas materializa aquilo que chamamos de fé cega.
É a primeira vez que te escrevo: nunca estivemos à distância de uma carta. A cidade que habitas é feia e denigre os viventes: metrópole que a tudo reduz à media, cubista, esfumada, cuspida. Bem vês, tenho caminhado obtusamente rente às escarpas da amargura, como um velhaco solitário e ranzinza, um Dom Casmurro, dirias. Quiçá seja estresse pós-traumático. Ou síndrome de abstinência. Trago à memória a lucidez do teu olhar, meu paradigma, meu precedente: como, entre veredas que agridem a vista, onde não se caminha, transita-se, viste despertar esta ambição latente? Nestas paredes depredadas tudo o que se lê são versos de adeus em bilhetes de embarque. Corriolas hão de disputar tão prendada jardineira (que enxaguava suas roupas em tonéis de lavanda campeira e calçava sandálias de flores esmagadas). Deixo-te aqui este restolho de ciúme embalado nos trapos do orgulho com que te amava desarrazoadamente. Perdoa-me. Faz-se noite agora: o juízo renascerá na aurora que, a propósito, tem chegado deveras atrasada. Voltarias a tempo, se quisesse, de cantar as melodias da vindima e fazer o fogo estalar as pinhas como os beijos que colhíamos em cachos. E neste devaneio, o que faço? Escoro meu apelo derradeiro, rompante inócuo, na armação da poesia. Maldita a angústia que infectou este sangue grosso e encardido com o vírus da pieguice. E maldita também tua aspiração - minha expiação - por quebrar o compasso deste coração alienado que ora mantenho amarrado à cabeceira da (nossa) cama. Bobagem. Chega desta farsa: estás decidida, deixemos assim. Fico com a experiência de saber o que é um fim.
Lá estava a professora a encarar cinquenta alunos de cara amarrada. Há semanas intuíra a insatisfação daquela turma. E entendeu seus motivos. O mundo mudava velozmente, arrastando consigo novos temas, novas descobertas, novos horizontes: a juventude, imersa nessa realidade, estava sedenta por desafios; e no entanto o currículo a obrigava a sufoca-los com literatura moralista. Aquele era um colégio católico, e pior do que católico, jesuíta. Os pais daqueles jovens esperavam comedimento e, sobretudo, comprometimento da instituição com os valores cristãos. Mas a que custo? A desmotivação dos estudantes era evidente: estavam visivelmente insatisfeitos, entediados mesmo. E pareciam ter razão. Forçá-los a ler Meu pé de laranja lima, Fernão Capelo Gaivota e As pupilas do senhor reitor soava anacrônico naquele contexto. Levou então o caso ao Conselho de Classe. O diretor acadêmico sugeriu à professora que alternasse os títulos curriculares com romances de livre escolha pelos discentes. Saberiam assim quais assuntos andariam a atrair o interesse da juventude. A proposta tomou os alunos de surpresa: não estavam acostumados a tais liberalidades. Soava a coisa de colégio moderno, dinâmico, não de um museu escolástico como aquele. E assim aproveitaram a deixa para atacar o sistema, combinando, todos eles, de trazerem à baila títulos ousados como O amante de Lady Chatterley, A carne, Meu destino é pecar e, obviamente, Lolita. Semanas depois, revelada a trama, a professora, sem saber o que fazer, recorreu novamente ao Conselho de Classe. Seus colegas caíram na gargalhada: aqueles alunos lhe haviam aplicado uma pegadinha épica. O diretor acadêmico deu por encerrado o experimento e determinou que ela voltasse a trabalhar com o cânone institucional. Que os engraçadinhos ficassem com Pollyanna. E depois, com Pollyanna Moça. E terminou rogando pela discrição de todos: o precedente não deveria ascender à direção geral. Se há uma coisa que não define um jesuíta, é o bom humor.
Há um concerto do Grateful Dead gravado em São Francisco nos idos de 1974, disponível online. Devo tê-lo visto uma dezena de vezes. Sabe aquele tipo de evento que nos imprime uma memória afetiva mesmo não o tendo assistido pessoalmente? Pois eu gostaria de ter assistido aquele show. E acho que me daria muito bem com aquela plateia. Economia não parece ser o forte dos hippies, e apesar do Grateful Dead estar no centro daquele movimento, as tentativas de seus fãs – os deadheads - de trocarem flores por ingressos, raramente davam certo. Eis a ciência econômica ajustando a ideia à ação. O Grateful Dead elevou o conceito de liberdade a outro nível: a libertação da consciência. Manipular a consciência é algo contraintuitivo (estados alterados da consciência estão associados a patologias graves). Inclua na equação o consumo de lisérgicos de procedência duvidosa e o risco da atividade dispara exponencialmente. O Grateful Dead pagou um preço alto pelo experimentalismo: nada menos que três integrantes do grupo morreram por causas associadas às drogas. A história da banda é contada em detalhes no documentário A Long Strange Trip. Sou a favor da liberação das drogas, e não apenas devido aos efeitos terapêuticos que eventualmente possam ter, mas também pelo efeito recreativo, notadamente a busca pelo prazer. A culpa pela angústia da morte é de nossa reprodução sexuada. Que, no entanto, nos oferece uma compensação interessante: o prazer. O prazer é a compensação que a evolução deu aos humanos para assegurar a perpetuação da espécie frente à angústia da morte. Um dos objetivos das terapias psicológicas é encontrar fontes de prazer aos pacientes. O alívio do estresse, de regra, envolve eventos prazerosos: festas, passeios, leitura, viagens, esportes, cinema, teatro, hobbies, camping, happy hour, animais de estimação, encontros gastronômicos, retiros espirituais, orgias orgásticas, massagens tântricas, enfim, cada personalidade dispõe de recursos para encontrar prazer. As drogas representariam mais uma opção no cardápio. Integrar à sociedade as drogas hoje ilícitas permitirá que sejam ministradas de forma segura e com controle de qualidade, acompanhadas de protocolos de consumo (as tais bulas), reduzindo não apenas as overdoses, mas também a violência e a degradação que comumentemente habitam esse setor. E talvez melhorasse a vida das pessoas em países produtores, geralmente castigados pela violência, opressão e corrupção. Mas posso estar errado. Até porque meu lugar de fala nesse tema é discreto: sou absolutamente careta.
Tenho escrito bastante nas últimas semanas. Basicamente uma crônica por dia. Abordei aspectos biográficos, improdutivas divagações filosóficas e alguma ficção (maliciosa). Superei e muito minhas expectativas. A rotina tem sido generosa comigo, abrindo espaço ao luxo da literatura. Faz-se necessário, contudo, dividir esse tempo extra com um projeto cuja entrega foi prometida para este ano. Deixo-vos, em contrapartida, com o modesto romance que escrevi – O Horizonte no Espelho – finalmente disponível em formato e-book. Não consegui todas as bençãos que busquei a ele, e me faltou criatividade para inserir temas que, em primeira análise, caberiam perfeitamente na história. Shoganai. Seus defeitos decorrem, primeiro, da falta de experiência de seu autor neste modelo, e, segundo, das sucessivas interrupções durante sua produção, a exigir cansativas releituras. Da ansiedade em concluí-lo resultaram erros de revisão, falhas de continuidade e saltos abruptos na narrativa, notadamente em seu arremate. O livreto tem também seus méritos, e alguns segredos, mas deles não falarei nada: apelo aqui à cumplicidade do leitor à sua defesa.
Ela arranjou um namoradinho. A frase tocou o marido como um tapa no ouvido. Sabia que esse assunto viria, obviamente, mas não agora. Conferiu a filha sentada no sofá. “Muito cedo, não achas?” A esposa deu de ombros. A vida seguiu, mas aquela conversa não lhe caiu bem. Passou a reparar detalhadamente em sua pequena, e constatou, para sua surpresa, que ela de fato não era mais uma criança: seu desenvolvimento acelerara deveras, estava já uma mocinha. Sua mente foi então sequestrada por um sentimento estranho, uma espécie de malícia patológica em relação ao ambiente, à sociedade, enfim, a tudo que dissesse respeito à filha. Imaginá-la trocando afetos com um rapazote lhe embrulhava o estômago. Passou a levar e buscar a filha na escola (aquele bedel tem um jeito estranho), ficava de olho em seu grupo de amigas (aquela loirinha tem cara de oferecida), monitorava seu smartphone (aquela rede social está apinhada de pedófilos). Começou a se afastar dos amigos, especialmente de seus colegas do futebol: concluiu que todos não passavam de tarados, fossem eles casados, solteiros ou divorciados. O professor de tênis, o vigia do prédio, o ortodontista, os sócios na empresa, seu sobrinho mais velho, e também o mais novo, assumidamente homossexual, o atendente do McDonald’s, o motorista da van escolar, não havia homem que não dedicasse olhares famintos à sua princesa. O mundo estava repleto de selvagens. Era seu dever protege-la, custe o que custar. Certa feita, anunciou à esposa: “Matriculei a pequena na catequese. E também no grupo de jovens da Igreja. Precisamos reforçar seus valores, prepara-la para a vida. E tem mais: falei ao diretor do colégio que aquele namorico tinha que acabar, do contrário, arranjaremos outro lugar para ela estudar, uma escola que preze pela decência”. Não, não estava louco, respondeu à esposa. “Louco é este tempo em que vivemos. Não percebes? A sociedade está corrompida, não há mais princípios, não há mais pudor. Só baixaria. Hás de concordar comigo que não podemos deixar nossa filha sozinha em meio à tanta devassidão: precisamos lutar para restabelecer a moral nesta cidade, neste país, neste mundo!” A esposa estava atônita: aquele homem diante de si, que agora pregava os valores da família, era o mesmo que, até pouco tempo atrás, assistia pornografia, saía em bloco de sujos e sonegava o imposto de renda, o mesmo que pedira sua mão em casamento durante um baile de carnaval do qual acabou expulso por dançar nu em cima do palco, o mesmo que comprou brigas em defesa da despenalização das drogas. “Presumo que seu fetiche envolvendo sexo anal esteja então revogado?” Sim, estava, respondeu o homem, cabisbaixo. Quando a esposa fez menção de sair, ele a impediu: “Uma última coisa”. Ela congelou, pressentindo o golpe. - Daqui em diante, votaremos no Bolsonaro!
Umberto Eco publicou, muitos anos atrás, uma reunião de crônicas - La Bustina de Minerva - extraídas de sua coluna homônima na revista l’Espresso (bustina refere-se àqueles pequenos envelopes de fósforos à cartolina comumentemente utilizados pelos fumantes para anotações rápidas). Um dos textos selecionados aborda a Guerra nos Balcãs. Eco repercutia aquilo que os jornais denominavam de “guerra tecnológica”, com alvos de interesse militar, específicos e precisos, e que por isso causariam bem menos danos do que o modelo anterior, chamada de “guerra paleolítica”. A lógica evocada era a de que, fosse para ocorrer uma guerra, as partes engajadas deveriam ser compelidas a utilizar os recursos tecnológicos disponíveis para preservar a população civil. Ocorre que, sem uma jurisdição internacional eficaz, essa evolução ética não passa de uma utopia. Vimos ontem na Guerra da Síria. Vemos hoje na Guerra da Ucrânia. Dia desses assisti Vinte Dias em Mariupol, documentário agraciado com o Óscar. Os ataques russos contra a infraestrutura civil ucraniana, e o sofrimento humano deles decorrentes, capturados friamente pelas lentes dos documentaristas, trincam nossa estrutura emocional: somos destruídos juntamente com a cidade. Pausei o filme algumas vezes. São imagens de partir o coração. O direito internacional tem sido menosprezado seguidamente no século em curso, e o crescimento do populismo deve comprometer ainda mais sua relevância. Que dizer a respeito de nós, cidadãos? Continuamos desatentos às condenações por violações aos direitos humanos. Falo com a vergonha de quem testemunha seu próprio país, o Brasil, colecionar reprimendas de organismos internacionais e aproveitar-se do drama ucraniano para fazer negócios vantajosos com a Rússia. Sinto muito, Umberto, mas dadas as evidências, penso que a humanidade somente vingará em acabar com as guerras paleolíticas quando estiver à altura de acabar com qualquer tipo de guerra.
Era uma moça satisfeita consigo mesma. Não se achava nem bonita, nem atraente, mas sabia valorizar suas virtudes, ainda que raras. Vivia cheirosa e arrumada, andava sempre na moda. E era inteligente, disciplinada, estudiosa: foi a primeira da família a entrar na Universidade. Lá arranjou um namoradinho, um gajo interessante, educado, intelectual, e que cumpria satisfatoriamente o combo básico: cinema, restaurante e cama, a cama larga e fofa do quarto de república que ele alugava. Eventuais carências, poucas na verdade, eram compensadas com brinquedos e fantasias. E ela era realmente muito criativa neste quesito. Um dia seu primo apareceu: era tempo de férias. Não o via fazia o que: dois verões? Estava diferente: crescera deveras, ganhara corpo, resultara um belo moço. A rotina seguiu normalmente até que ela o flagrou – santo clichê! - a tocar-se no banheiro. Okay, são coisas da vida, acasos que, à exceção do natural constrangimento, não levam a maiores consequências. Conheciam-se de criança, estavam acostumados a certas intimidades. Só que a rapariga acabou fascinada pelos predicados do primo. Sua memória, por capricho ou desejo inconsciente, fez questão de arquivar aquela cena de virilidade faminta, lasciva, superlativa. Sentia-se compelida a fazer algo a respeito. O problema era que o primo não dava a menor bola para ela. Imperava ali uma relação eminentemente fraternal. Contasse ela com adjetivos mais generosos, o problema estaria já resolvido. Teve então uma ideia: recrutar uma amiga que, por características da personalidade, atributos naturais e precedentes acumulados, despertaria, como de fato despertou, o interesse do bonitão. Convidou-a para jantar com eles ao final de semana, encheu-os com música e vinho, e quando os dois, primo e amiga, arrastaram-se, aos beijos, para o quarto, ela enfiou-se junto, fechando a porta. Bem sabia ela que poucos são os jovens que resistem a uma oferta dessas. Enfim. Muitas foram as noites em que, esmagada na cama larga e fofa do tal quarto de república, ela recorreu àquele evento extraordinário a fim de contornar a aridez da monotonia, uma lembrança que ele próprio, o primo, não vingou guardar.
A Psicanálise costuma render papos divertidíssimos. A imagem do psicanalista grave, taciturno, misterioso, é uma idealização emprestada da célebre fotografia de Freud em seu terno marrom, charuto à mão e olhar penetrante: os psicanalistas que conheço são de regra descontraídos e bem-humorados. Tempos atrás eles, os psicanalistas, ficaram ouriçados com as provocações feitas pela querida Natália Pasternak e seu marido, Carlos Orsi, no livro Que Bobagem! É que os autores basicamente incluem a Psicanálise no campo das pseudociências, tornando-a equivalente à homeopatia e à astrologia, o que deixou os discípulos de Freud indignados. Tratar doenças psicológicas sem precisar conversar com o paciente é o santo graal das pesquisas nesta área: a ideia aqui seria o médico, após uma breve consulta, encaminhar o paciente a um tomógrafo, e o resultado, associado a outros exames laboratoriais, definiria o diagnóstico e a medicação pertinente ao caso. Bem mais rápido e barato do que meses e meses de terapia. O problema é que estamos ainda muito distantes dessa ficção, e não há garantia alguma de que um dia chegaremos a ela. Em Ad Astra, o personagem de Brad Pitt é submetido a avaliações psicológicas rotineiras por uma Inteligência Artificial, mas o acesso a seu estado emocional ainda dá-se através da palavra. Boa parte da teoria original da Psicanálise foi revista ou simplesmente abandonada ao longo do tempo, mas Robert Sapolsky, neurologista e pesquisador referência na área, reconhece alguns dos insights freudianos. Nós, humanos, pensamos através de palavras, e nossas funções cognitivas parecem corresponder à nossa evolução no domínio da linguagem (e do aprendizado, consequentemente). Pensar em terapias usando a palavra para acessar as emoções, como antecipou Freud, aparenta fazer sentido, uma vez que estão inseridas no mesmo contexto. Seja como for, a psicologia evoluiu deveras desde Freud: novas abordagens surgiram, as medicações estão cada dia mais eficientes, e muitos outros campos do conhecimento passaram a interferir nesta disciplina, que deve continuar a progredir à medida em que novas tecnologias surgirem. O paciente não só pode como deve questionar seus terapeutas sobre a base científica que seguem (observe que base científica e base teórica são termos diferentes: a astrologia e o feminismo, por exemplo, têm bases teóricas, mas não científicas). Há psicólogos com foco em Gestalt. O terapeuta que me atende, que tem formação em Psicanálise, observa comigo outra abordagem, a Cognitivo-Comportamental. E ele tem uma opinião que me parece bastante sensata: considera terapêutica qualquer técnica que ajude o paciente a organizar seu pensamento. Não sei se Natália e Orsi estão corretos em suas conclusões acerca da Psicanálise, mas eles não patrocinam nenhum absurdo ao cobrar atenção à metodologia científica pelos psicanalistas, e não custa nada a estes apresentarem seus estudos, até para atualizar o público sobre eventuais avanços. A par de tudo isso, na crítica literária, a abordagem psicanalista produz textos preciosíssimos. Lembro de um estudo crítico tratando do conto de Chapeuzinho Vermelho. Segundo o autor do estudo, a história duma mãe mandando sua filha adolescente caminhar bem sozinha por uma estrada na qual sabe haver um lobo mau está muito mal contada. Que dizer da vovó, que prefere morar isolada no meio da floresta ao invés de viver próxima à segurança de sua família? Tem coisa estranha nas mulheres dessa família, algo bem mais profundo do que a alegoria manjada envolvendo o conflito entre macho sedutor (o lobo mau) e macho protetor (o lenhador).
Aquela mulher estava indignada. Não havia nada de errado consigo. Era bonita, desejável. Recebia sucessivas propostas de seus colegas de academia, e a todas recusava: era casada, não sabiam eles? Mas havia um homem, um certo amigo de seu marido, alto, moreno, charmoso, ao qual ela não conseguia resistir. Não que ele houvesse insinuado interesse, ao contrário, esquivara-se de todas as suas investidas, evitava até mesmo ficar a sós com ela. Era mais fiel ao amigo do que ela ao marido. Aquela era uma fantasia no singular. E a resistência do macho a deixava transtornada. Certa noite, numa festa, aproveitando-se de um esbarrão casual em um canto escuro, prensou o tal homem contra a parede e fez menção de beijá-lo, mas ele, uma vez mais, desviou-se. Só então ela percebeu que tal conquista exigiria uma estratégia radical: fragilizar aquela amizade. E assim, antes que o homem fugisse, ela tomou sua mão e sussurrou ao seu ouvido: Se você soubesse a verdade ... Ora, a verdade era que o marido cumpria suas obrigações conjugais com elogiável destreza, e mais do que isso, dedicava-se integralmente ao casamento. Ela também. Sua obsessão com aquele homem era algo absolutamente inexplicável, porém, irresistível. Ao vê-lo deixar aquele canto escuro, ela teve a certeza de que havia plantado a semente da dúvida. E foi regando-a com mentiras a cada oportunidade. Até que enfim convenceu o alvo de que somente ele poderia salvar aquele casamento: a traição ao amigo, naquele caso, seria mais uma prova de amizade. Saciada, ela o agradeceu, e nunca mais o procurou. Nos encontros sociais que se seguiram, cumprimentava-o amistosamente, mas evitava atitudes que pudessem sugerir uma eventual recaída. Aquele assunto estava definitivamente resolvido. Quando, anos mais tarde, especulavam nomes para um ménage à trois, o marido sugeriu aquele amigo, mas ela o recusou: poderia comprometer a linda amizade que havia entre os dois.