O senhor me vem com esses dados, e eles podem até estar corretos, mas meu coração diz outra coisa! Foi o que argumentou um colega em resposta ao nosso professor. O ano era 1990. O Brasil acabara de vivenciar dois grandes eventos: a promulgação da nova Constituição da República e a posse do primeiro presidente eleito pelo voto popular após a redemocratização. Debates ideológicos fervilhavam, especialmente no meio acadêmico. Eu, que recém ingressara no curso de Direito, tinha mesmo opiniões para tudo. O cenário era caótico. Como as esquerdas haviam perdido as eleições, greve era a palavra de ordem nos sindicatos. O país enfrentava uma crise hiperinflacionária e o novo governo congelara a poupança dos cidadãos. Certa feita, ao chegar na sala de aula, nosso professor de Introdução à Economia flagrou a turma engajada numa discussão acalorada: na pauta, o futuro do país. O sucesso dos campos extremistas, tanto hoje como naqueles dias, deve-se à competência em conduzir a disputa à seara emocional, inflando a militância; pois num debate racional, fundamentado, sereno, eles têm pouco ou quase nada a oferecer. Eis que nosso professor tratou de organizar o debate, estruturando as propostas e exigindo que os alunos fundamentassem suas opiniões segundo uma abordagem econômica. Foi um banho de água fria na turma. Ficou evidente a vacuidade de nossos argumentos, as mais das vezes abstratos, utópicos, dissociados da realidade. Ou seja, infantis. Lembro de, frequentemente, nosso professor colher da imprensa análises supostamente especializadas acerca da conjuntura nacional, então as enquadrava nas respectivas áreas da ciência econômica e as confrontava com os dados: a conclusão aparecia naturalmente. E assim, sem tomar partido algum, ele imprimia em seus alunos valores fundamentais ao debate acadêmico, como a necessidade de provar o que se diz e evitar cair em falácias e vieses. A retórica não se sobrepõe à realidade. Alguns colegas ficaram incomodados com tal pedagogia subliminar e esboçaram reações das mais diversas. Foi o caso daquele camarada meu, que, confrontado com os dados, acabou apelando ao romantismo. Mas o coração faz parte do processo de viver. Sabemos todos o quão difícil é mudar de ideia em relação a algo em que acreditamos com assaz intensidade, notadamente ... o amor.
Era um domingo. Voltava para casa, depois de uma tarde brincando com amigos, quando comecei a passar mal. Abateu-me uma tontura como nunca antes havia experimentado. Vomitei convulsivamente. Meus pai me levaram à cama. Não conseguia me mexer: ao menor movimento, a vertigem voltava, violentamente. Chamaram o médico da família. Infecção estomacal, vaticinou. Foi este o primeiro episódio de labirintite aguda de que me recordo. Eu ainda morava no interior e por isso sei que contava com nove anos de idade. Sofri muitos outros episódios de labirintite aguda ao longo da vida, tratados, inicialmente, com Dimenidrinato, e depois, ao final da adolescência, com um composto à base de Piracetam e Cinarizina. Pouco antes dos trinta anos resolvi investigar a fundo essa história: eu sentia àquela época uma piora nas crises. O médico pediu-me uma tomografia do cérebro, e como apareceu um angioma cerebelar, foi necessária uma ressonância magnética a fim de examiná-lo melhor. Com os labirintos, tudo bem: estavam como deveriam estar. E o angioma permanece lá, sem muita gravidade (e sem muito o que fazer). Agora vem o plot twist. Durante essa investigação acabei vivenciando uma crise de ansiedade. O cérebro pareceu entrar em curto circuito, e à consequente dificuldade cognitiva uniu-se uma tremenda tensão muscular, calafrios e taquicardia. Corri ao psiquiatra. Que depois de me estabilizar (fase que durou um mês), apresentou-me o diagnóstico: depressão ansiosa. E mais do que isso, era provável que minhas crises de vertigem estivessem associadas a esse quadro: com o tratamento elas haveriam de diminuir, o que se conformou. Como havia relatado a ele que a labirintite vinha desde criança, sua resposta chocou-me deveras: “É bem possível que você sofra de depressão ansiosa desde aquela época”. É difícil aceitar que crianças possam ser vítimas de ansiedade e depressão, expressões que soam à coisa de adulto (como toda doença grave na verdade), mas esses são os fatos. E como crianças são de regra cheias de energia, certos sintomas acabam ou camuflados, ou colocados na conta da personalidade em formação. Okay, eram outros tempos, pesquisas nessa área apenas engatinhavam, mas mesmo hoje, poucos pacientes, uma minoria realmente, vítimas de depressão e/ou ansiedade, encontram-se corretamente diagnosticados, e desses, uma parcela menor ainda acaba por ser devidamente tratada. Neste contexto, apesar dos pesares, é razoável dizer que tive sorte. Há online uma ótima palestra de Robert Sapolsky atualizando pesquisas relacionadas à depressão. A melhor forma de nós, leigos, ajudarmos pessoas com problemas dessa natureza é, de fato, conversando sobre eles, sem dramas, nem preconceitos.
O BookCrossing chegou ao Brasil em 2003, mas não mereceu a simpatia de meus patrícios. Não foi lá nenhuma surpresa tal rejeição. E depois de um amigo libertar dezenas de livros sem receber uma anotação sequer, nada mais restou senão reconhecermos a derrota e desistir do projeto. Foi desestimulante constatar que nossos esforços acabavam ou em bibliotecas particulares, ou em alfarrábios. Sem falar que autores e editoras fecharam a cara à iniciativa. Soa de fato contraintuitivo àqueles que vivem de literatura aceitar o compartilhamento gratuito de livros: é preciso conhecer um pouco de economia comportamental, ao estilo Freakonomics, para reconhecer o valor de uma proposta como essa. Tempos atrás encomendei um certo livro de um sebo e nele havia um registro de BCiD coberto por uma folha colada. Consegui resgatar o número e anotei a intercorrência no BookCrossing. Sim, para minha surpresa, o sistema continuava ativo, e isso graças ao acolhimento estrangeiro, inclusive de alguns entusiasmados portugueses que o seguem, dizem eles, tal como uma seita. Resolvi reativar meu cadastro e anotar os livros que tenho aqui, especialmente aqueles que serão presenteados ou doados. Não perderei tempo escrevendo bilhetes de apresentação do sistema, nem realizando libertações ao acaso: anotarei o BCiD e pronto. Sabedores saberão. Será mais um hobby à coleção.
Nesta terra, em se plantando, tudo dá. A frase de Caminha remete à fertilidade do solo brasileiro à agricultura, mas pode perfeitamente ser estendida aos produtos da abstração humana. Comentarei especificamente sobre a Maçonaria, que pegou muito bem no Brasil. Suas três grandes potências adaptaram-se a todas as regiões desta terra varonil. Meu pai era maçom. Meu padrinho também. Parentes e bons amigos meus são maçons. É maçom pra todo lado, e a proximidade com eles franqueou-me acesso a muitos de seus segredos, especialmente os rituais (hoje disponíveis na internet). Há muito a Maçonaria deixou de ser secreta para ser discreta. Mas saber que meu pai, sisudo, grave, conservador, divertia-se em rituais, desculpem a franqueza, infantis, deixou-me chocado. E chocado ele ficou no dia em que me convidou para entrar na Maçonaria. “Sou ateu, pai”. Seu semblante não escondeu a decepção. Ser ateu é, ou era, um impeditivo estatutário para ingressar na ordem: é um imperativo de sua deontologia louvar o G.: A.: do U.: O fato é que não havíamos tido até então, eu e meu pai, uma conversa em nível, digamos, filosófico. Ele cometeu o erro que muitos pais cometem: presumir que seu filho seguiria os valores da família. Hoje sabemos que a influência dos pais não chega a tanto: o ambiente geral prevalece. O mito de que a laranja não cai longe do pé é apenas isso, um mito. Meu padrinho, por sua vez, teve uma reação mais negativa: tomou-me como antimaçônico. Seguiram-se longas conversas sobre as funções das sociedades secretas na modernidade, especialmente diante do fato da ciência ter assumido a primazia do conhecimento. A meu ver, dizia-lhes eu, os debates maçônicos, eminentemente filosóficos, perderam sentido; e se assim fosse, tais sociedades estariam resumidas, na melhor das hipóteses, a algo próximo a um clube de cavalheiros, e na pior das hipóteses, a veneráveis cosplays da Cosa Nostra. Pode parecer paradoxal, mas ao contrário do que pensava meu padrinho, tenho uma dívida de gratidão com a Maçonaria. Certa noite, ainda nos anos 1980, meu pai foi atacado por uma crise aguda de úlcera gástrica. Apavorada, minha mãe correu à Loja Maçônica, que estava em sessão. A imagem de seus irmãos maçons, ainda em aventais, carregando em seus braços meu pai, continua vívida em mim. Salvaram sem dúvida a vida dele. E esse, ao menos para mim, é um argumento cabal a favor dos bodes. Tempos depois, tanto meu pai quanto meu padrinho se afastaram da Maçonaria. Não tive nada a ver com isso: suas frustrações envolveram temas exclusivamente mundanos. E foi uma pena. Nossas conversas acabaram por perder densidade.
Shoganai é uma expressão japonesa que busca traduzir o sentimento de inevitabilidade frente aos fatos da vida. Soou-me um tanto conformista à primeira vista: o pensamento ocidental ainda não assimilou o acaso como uma força natural, apesar dele ser referenciado pela Teoria da Evolução das Espécies, pela Mecânica Quântica e pela Teoria do Caos. Hoje, mais calejado, tendo a aceitar o conceito, e tenho preferido ele ao invés de nossa expressão mais aproximada: paciência. Shoganai nos lembra, enfim, a dimensão real do homem diante da natureza. Observo que os contratempos decorrentes das falibilidades humanas, especialmente de nossas abstrações morais, não se encaixam neste conceito (embora haja ditadores que buscam inclui-los à força). Na enchente do Rio Grande do Sul, muita coisa há de seguir à conta do shoganai; outras, todavia, merecerão maiores investigações. Veja que os japoneses são treinados para lidar com desastres naturais e investem pesadamente em prevenção: eles sabem, de regra, em quais canais de comunicação confiar, quais as áreas seguras em suas regiões, para onde devem ir em caso de evacuação, o que devem fazer para evitar ou mitigar os eventos, como se comportar durante as ocorrências; aplicativos alertam, de forma bem convincente, sobre terremotos, e a turma não hesita quando as sirenes tocam. Ainda assim, houve Fukushima. Shoganai veio-me à mente ontem, defronte à lista de compromissos que me propus resolver este mês, mas não consegui. Superestimei minha disposição ou subestimei as forças do acaso, que foram implacáveis em sabotar meu ingênuo planejamento. Shoganai. Fica pro mês que vem. O que me faz pensar se haveria em japonês uma palavra correspondente para procrastinação. Provavelmente não.
Escrever sobre uma tragédia ainda em desenvolvimento soa inapropriado àqueles que, como eu, ostentam um viés de personalidade essencialmente pessimista e, pior do que isso, não têm soluções práticas a oferecer. Pesa a meu favor certa experiência em dilúvios: sou natural de Araranguá/SC, cidade recorrentemente afetada pelas cheias de seu rio, e minha mãe reside num bairro de Florianópolis/SC que busca conviver com enxurradas cada vez mais frequentes. Devo também ressaltar, como atenuante, que posso estar errado em relação a tudo o que escreverei a seguir. Tomem como mero desabafo. Dito isso, seria razoável pensar que autoridades e sociedade civil, num futuro próximo, discutam como adultos, serenamente, sobre o futuro do Rio Grande do Sul, tratando da realidade, a realidade nua e crua, sem esconder fatos que, em retrospecção, causem constrangimentos. Seria razoável acreditar que, dada a extensão do evento e os traumas dele decorrentes, surgissem políticas que tratassem da questão ambiental com a seriedade que ela exige, seriedade de gente adulta, responsável. Mas temo que, escoadas as águas, e sobrevindo lindos dias de sol, entrem em campo os conciliadores de sempre a fim de drenar a indignação que eventualmente ainda resista e assegurar que chimango continue a votar em chimango, e maragato em maragato. Por que? Porque a pauta ambiental, perdoe a honestidade, que parecia secundária aos gaúchos, há de permanecer secundária. Não me recordo de sindicatos, associações de classe, representantes do empresariado e do agronegócio, cultos religiosos, movimentos políticos, terceiro setor, enfim, não me recordo de nenhum ator político relevante tratar a pauta ambiental como prioridade. Ao contrário, o que se vê são estes atores disputando como hienas num frenesi predatório os poucos recursos de um Estado inflado e falido. Testemunhamos pautas de natureza diversa, salariais, laborativas, tributárias, reinvindicações legítimas de benefícios e subsídios, enfim, cada entidade a defender o seu, seja mediante ameaças de paralização, seja via lobby institucional. Quase nada de meio ambiente aparecia no rol de demandas. Pois investir na pauta ambiental, muito além de exigir recursos orçamentais a projetos e ações preventivas, implica, dizem eles, impor freios à atividade empresarial e agrícola, comprometendo o desenvolvimento econômico, a arrecadação e a criação de emprego, algo equiparável à blasfêmia num Estado inflado e falido. A falta de consciência coletiva acabou por estimular narrativas negacionistas que, vale frisar, não são exclusividade da extrema-direita: basta ver o arquivamento do projeto Brasil 2040 pelo governo Dilma (agora mesmo acompanhamos a fritura da Ministra do Meio Ambiente face a interesses econômicos havidos na foz do rio Amazonas). Do governo Bolsonaro, é fato notório o desmonte do Ibama, traduzido nas expressões cínicas do então Ministro do Meio Ambiente ao defender “passar a boiada” nas regras ambientais. Pesquisas apontam que 77% de brasileiros defendem uma pauta ambiental prioritária, mas o eleitorado mostrou-se assaz receptivo às teses negacionistas. E se além da ignorância ambiental incluirmos no termo negacionismo o desrespeito à ciência em geral, com destaque à ciência econômica, veremos os negacionistas vencendo de braçadas no Brasil. Interesses mesquinhos e setoriais continuam a prevalecer sobre a consciência coletiva e a responsabilidade social, e isso em todo o espectro político brasileiro. Adotar posições pragmáticas e coletivas em detrimento de individualismos e utopias exige uma mudança cultural que, convenhamos, é improvável de acontecer neste Brasil de agora. Exatamente como ocorreu nas reformas previdenciária e tributária, categorias narcisistas hão de se enfileirar para tirar o seu da reta. Sim, a cultura do “no meu ninguém mexe” tem tudo para triunfar mais uma vez. Mas posso, e desejo, estar errado.
Vez ou outra, eu e alguns colegas investidores nos reunimos para um happy hour e, como de regra, acabamos por conversar sobre tudo, menos sobre investimentos. Eis uma sugestão àqueles que pretendem enveredar pelo mundo das finanças: não deixar que esse tema sequestre vossas vidas. As melhores teses de investimento são aquelas às quais chegamos antes e enxergar o panorama de forma ampla facilita os insights. Voltando à nossa última reunião, gastamos um bom tempo repercutindo as previsões de Scott Galloway feitas na OMR24. Um ponto que tem merecido especial atenção de Scott é a solidão do jovem macho americano. Em um artigo anterior, Scott referenciou um dado curioso: nos aplicativos de paquera, uma minoria de machos alfa (algo como 10%) acaba por arrebanhar a maioria das pretendentes (90%). Scott, professor universitário cuja clientela é composta por jovens, identificou o crescimento da frustração nos jovens machos de nossa espécie, com resultados alarmantes nas taxas de ansiedade e depressão (homens apresentariam quatro vezes mais chances de cometerem suicídio do que as mulheres). Era um tanto previsível que certos avanços sociológicos (a independência econômica das mulheres, a inseminação artificial, a desmistificação do prazer e a dessacralização da maternidade) acabariam por repercutir em nossa dinâmica social. A função evolutiva do macho humano foi colocada em xeque. Não há uma resposta fácil a essa questão. Scott recomenda que, de início, os jovens machos privilegiem a interação social pessoal em detrimento da virtual, ou seja, cultivem amizades com as quais possam fazer um happy hour de vez em quando.
Nasci em Araranguá, município do extremo sul catarinense conhecido pelo baixo custo de vida e pelas violentas cheias de seu rio. Lá vivi até meus nove anos de idade. Àquele tempo, eu não sabia o que era elevador, semáforo ou transporte coletivo. A cidade era pequena, todos se conheciam, o que franqueava às crianças uma invejável liberdade. Minha família habitava uma casa tão espaçosa que chegava a ser silenciosa, e, o melhor de tudo, situada a poucos metros do colégio que eu frequentava. Viver era fácil. Fácil demais. Eis que um dia viajamos a Florianópolis com a desculpa de visitar minha irmã, recém aceita na Universidade. Lá chegando, meus pais me comunicaram que não voltaríamos mais a Araranguá: a mudança estava já a caminho. Seguiu-se então um longo período de traumas, solidão e saudade. A escola particular em que me matricularam era pedagogicamente muito mais avançada do que aquele colégio público do interior, obrigando-me a tomar aulas suplementares. A capital do Estado era grande demais: não me arriscava a sair sozinho. Eu me sentia perdido. O apartamento era minúsculo. Os elevadores me causavam pânico. Não possuía amigos. Engordei deveras. Voltei a fazer xixi na cama. Desenvolvi gagueira nervosa. Meus dias se limitavam a assistir Jornada nas Estrelas numa pequena televisão preto e branco, ler gibis e ouvir a rádio. E foi a rádio que imprimiu em mim a primeira memória afetiva daqueles dias: I Won’t Let You Down, do PhD, fazia então o maior sucesso, e eu incomodava os DJs telefonando todas as tardes para lhes pedir que tocassem essa e outras músicas (observem que eu não falava inglês, de forma que minhas súplicas musicais vinham acompanhadas de solfejos que só aqueles especialistas, meus únicos amigos, eram capazes de traduzir). “E especialmente pro Pedrinho, de novo, I Won’t Let You Down”. Eu me sentia especial com tamanha deferência. Posso dizer mesmo que a rádio salvou a minha vida. Jamais perdoei meus pais por aquela violência. E quando abobados defendem a família como base da sociedade, a vontade que tenho é de meter-lhes a mão na cara. Mas então ligo a rádio e torço para a vontade passar.
Umberto Eco talvez tenha sido o escritor que mais influência exerceu sobre mim. Um tema recorrente em sua obra – a questão da verdade/autenticidade – me é bastante caro. Em “O Nome da Rosa”, vemos o preâmbulo discutir, ficcionalmente, possíveis alterações editoriais feitas posteriormente ao relato original do protagonista (Adso). Em “O Cemitério de Praga”, Eco destaca o perigo da manipulação da verdade e a nocividade das teorias conspiratórias (no caso, o inexistente Protocolo dos Sábios de Sião). Em “O Pêndulo de Foucault”, a infantilidade das ditas sociedades secretas é utilizada como pano de fundo ao viés de confirmação envolvendo uma lenda flagrantemente fajuta, com resultados tragicômicos. Em “Número Zero”, o questionamento da verdade/autenticidade recai, vejam só, sobre o jornalismo. Enfim. Nem tudo o que está escrito está certo. Nada de supervalorizar a palavra escrita, ainda que chancelada pela lenda, pela autoridade ou pela sua reprodução massiva. Boatos e fake news não são exatamente uma novidade. Assim como o ceticismo foi interiorizado pelo método científico, devemos resgatar a dúvida como princípio em nossas atividades frugais, uma vez que pequenas distorções na informação, mesmo aquelas infantis, podem levar a resultados desproporcionais. A desconfiança, enfim, é uma das melhores defesas, regra que vale para todo o reino animal.
Pois bem, eis-me aqui a inaugurar um espacinho destinado a organizar meu baú literário. Escolhi baú literário à carreira literária, pois não me vejo, ainda, na condição de escritor. E tenho comigo que se trata de uma dúvida razoável, qual seja, saber o momento em que alguém está apto a apropriar-se de tal mister, se quando publica um livro, se quando passa a viver da escrita, enfim. Viver da escrita, de fato, não vivo, e provavelmente nunca o venha fazer. Sobre minha produção literária, ela resume-se a um único e breve romance, O Horizonte no Espelho, cuja publicação aguarda resoluções burocráticas e autorizações legais. Seja como for, as editoras são unânimes em exigir dos autores, especialmente os neófitos, proatividade na divulgação de suas obras, com destaque às redes sociais. Tenho implicância com essa palavra – proatividade – pois representa o antônimo do mais querido dos meus valores, a procrastinação. Sou proativíssimo em bocejar. E no que se trata de redes, prefiro a da varanda. Seja como for, aqui estou. Peço a devida licença para entrar em vossa casa e um pouco de compreensão por eventual lentidão em atualizar o feed.