CRISE ENTRE PODERES. Alexandre de Moraes anulou a decisão da Câmara dos Deputados que manteve o mandato da deputada federal Carla Zambelli. Concordo integralmente com os argumentos do Ministro neste caso; todavia, no precedente de 12/10/2017 – aquele que aliviou a barra do então senador Aécio Neves - o STF decidiu que o afastamento do mandato por decisão judicial necessitaria do aval do Legislativo; naquela oportunidade, Alexandre de Moraes não apenas concordou com a exigência do aval como defendeu a importância da imunidade parlamentar à proteção dos parlamentares “contra o abuso dos demais Poderes”; ora, a argumentação de 2017 soa contraditória à de 2025, e a circunstância do caso de Aécio envolver uma medida cautelar não impressiona, uma vez que o tema de fundo em ambos os precedentes é o afastamento do mandato, se provisório ou definitivo, tanto faz. Seja como for, a crise atual foi contratada lá atrás, em 2017, quando o STF cometeu o erro crasso de renunciar a uma ferramenta relevante ao manuseio dos freios e contrapesos, resultando, pois, num poder enfraquecido. GLÂNDULA DO MACACO. Robert Sapolsky comentou sobre uma terapia destinada ao rejuvenescimento masculino, assaz popular no início do século XX, em que uma das técnicas envolvia injetar, no ânus dos pacientes, soluções salinas contendo testosterona extraída de testículos de macacos, ideia absolutamente inútil cujo prestígio é atribuído ao conhecido efeito placebo. Cem anos depois, durante a pandemia da Covid-19, políticos brasileiros de grande popularidade defendiam o uso de uma terapia semelhante: injetar no ânus dos interessados uma certa quantidade de ozônio gaseificado (insuflação retal de ozônio), ideia cuja eficácia, ao menos à finalidade declarada, era nula. O recorrente fetiche dos charlatães pelas cavidades humanas é de uma ironia autoexplicativa; o que ajuda a esclarecer o porquê de o Governo Lula ter autorizado a ozonioterapia como tratamento complementar, contrariando pareceres oficiais de entidades médicas atestando a ausência de cientificidade de tal procedimento. O TRIUNFO DA FANTASIA. Conferindo os resultados do Censo do Sexo de 2022, conduzido pela Pantynova, vemos que 66% das mulheres afirmaram encontrar o orgasmo quando o procuram sozinhas; quando acompanhadas de seus parceiros, esse percentual cai para 19%. Com os homens, o resultado fica em 86% e 54%, respectivamente. Ainda que a diferença entre a realidade orgástica feminina e masculina mereça aprofundamentos, tudo leva a crer que a fantasia supera a realidade em ambos os gêneros. A FONTE DA FEDENTINA. Há algo de podre no reino da trumpilândia: os juros de 10 anos seguem altos, o dólar segue assaz desvalorizado frente ao euro e as expectativas flutuam na incerteza. Os artigos de Paul Krugman nos ajudam a entender a razão de toda essa fedentina.
Discute-se atualmente, no Brasil, a Reforma Administrativa, iniciativa legislativa que busca, dentre outros objetivos, corrigir distorções e extinguir privilégios, privilégios esses que resultam na captura do orçamento por categorias do serviço público com alto poder político, comprometendo a capacidade estatal de cumprir suas finalidades e gerando sensíveis desigualdades dentro do próprio funcionalismo. O busílis foi didaticamente condensado por Bruno Carazza no livro “O País dos Privilégios”, obra que vem suscitando resenhas empolgadas e colóquios estimulantes entre diversos atores da sociedade. Em sua recente coluna, Pedro Fernando Nery cita um desses privilégios – a autorização do Conselho Nacional de Justiça para pagamentos acima do teto remuneratório na forma de indenizações a magistrados, promotores e procuradores – decisão que, segundo o jornalista, conduziria a uma espécie de racismo orçamentário, e isso porque o valor destinado a tais benefícios equivale à quantia destinada ao Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro a estudantes de baixa renda, majoritariamente negros e pardos. Como era de se esperar, as categorias impactadas pela reforma acionaram seus lobbies a fim de preservar o que chamam de direito adquirido, vantagens conquistadas mediante articulações que, as mais das vezes, dispensaram a participação da sociedade e forçaram os limites éticos, especialmente o princípio republicado de que todos seríamos iguais perante a lei. O sequestro do orçamento público pela elite do funcionalismo repercute no baixo investimento à contratação e valorização do pessoal técnico, e à própria estrutura física, o que ajuda a explicar a histórica lentidão dos tribunais brasileiros (realidade que viola tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos como o princípio da Dignidade da Pessoa Humana, expresso na Constituição Brasileira). O mais grave é que o judiciário brasileiro costuma ser hostil a cobranças e fiscalizações, assumindo-se, pois, como poder autoritário e narcisista, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia. Que à Reforma Administrativa siga a indispensável e urgente Reforma do Judiciário.
A Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) fez a gentileza de compartilhar, em seu canal no YouTube, uma playlist contendo todos os episódios do "Literatura Fundamental", programa televisivo que convidava especialistas para conversar sobre livros clássicos. Àqueles que tiverem dúvidas sobre o que seja um clássico e por que ele deve ser lido, remeto ao clássico de Ítalo Calvino “Por que ler os clássicos”. Sim, eu sei, não há nada como enfrentar um romance sem qualquer estudo prévio, deixar-se surpreender por ele, extrair nossas próprias conclusões; mas há casos em que, seja pela distância temporal, seja pela complexidade, a obra revela-se inacessível mesmo a leitores experientes; daí a conveniência de rubricas destinadas a traçar o panorama desses títulos sem, todavia, esgotá-los; uma espécie de degustação literária da qual saímos com um gostinho de quero mais. Ou não.
TABUÍSMO. "Braço forte, mão amiga" é o lema do Exército Brasileiro. No tabuísmo tupiniquim, confirmado pelo Dicionário Informal, mão amiga significa o “ato comum entre adolescentes do mesmo sexo de masturbar-se um ao outro”. CAPITALISMO SÉRIO. A crise do banco Master é um lembrete cabal àqueles que defendem a desregulamentação do mercado financeiro. O capitalismo não é um sistema asseado, ao contrário, recebe sujeira de todo o lado (dumping, cartel, pirâmide, monopólio, maquiagem, fraude, marketing abusivo, práticas predatórias). O que não falta é picareta na Faria Lima. Confiança pressupõe fiscalização tanto quanto liberdade pressupõe responsabilidade. Quem defende a desregulamentação do mercado financeiro é a favor da impunidade e não da liberdade. ASTROLOGIA. A astrologia representa uma das formas mais antigas de charlatanismo ainda em vigor. É o que penso. Mas posso estar errado. Há quem defenda que seja uma verdadeira ciência natural. Se for esse o caso, a inteligência artificial será capaz de fazer mapas astrais mais confiáveis do que os dos astrólogos. BOLSONARO. Tudo o que Bolsonaro queria era reinar sobre os brasileiros. Pois agora está a reinar: a reinar como criança birrenta face ao castigo. Viu-se condenado pela tentativa de golpe; não fosse a falência de nossas instituições, sê-lo-ia também pelas mortes que induziu na pandemia. Então teríamos justiça.
Um nome cuja fama o precede, acompanhado de um título sugestivo: é o que basta para despertar nos leitores toda sorte de expectativa. Quem, todavia, se der ao luxo de ler Nicoleta Ninfeta, de Cassandra Rios, há de ver frustradas muitas de suas fantasias. Cassandra Rios chegou a ser a autora mais lida no Brasil, mas a censura imposta à sua obra - notadamente durante o regime militar (haja demagogia para atenuar tamanha carranca) - por pouco não a levou à falência. Hoje, seus livros são difíceis de encontrar mesmo nos melhores alfarrábios: daí por que ser um luxo ler Cassandra Rios nos dias atuais. Jorge Amado confessou, em seu livro de memórias, ter articulado para que Cassandra fosse indicada à Academia Brasileira de Letras; a vaga, porém, ficou com Rachel de Queiroz. Dada tal recomendação, fiz chegar às minhas mãos Nicoleta Ninfeta, título que faz jus à fama de Cassandra, mas não pelas razões que sua capa sugere. Das esperadas, ou desejadas, sequências ardentes, há apenas uma, esmagada ao fim da narrativa como que para justificar a tradição; no mais, temos a história de uma jovem senhora que, durante sua jornada em busca do amor, experimenta o conflito entre a ilusão romântica e a realidade nua: o desejo de investir em um novo amor face aos traumas de relacionamentos passados, de empreender no mercado editorial face à onipresença dos grupos dominantes, de convidar a namorada para sair face à falta de dinheiro para pagar o jantar, tudo envolto em referências filosóficas e insights perspicazes (“E a gente continua depois de muito amar sem saber exatamente o que é o amor”). Em romances breves, assim como nos contos, os detalhes assumem particular relevância, as descrições são resumidas, quando não suprimidas, e a psicologia dos personagens surge indefinida, as mais das vezes sugerida, tal como um desenho rascunhado apressadamente; em Nicoleta Ninfeta, todavia, a narrativa nos permite traçar o perfil psicológico da protagonista (e também narradora) com razoável acuidade: trata-se de uma mulher de meia-idade, lésbica, intelectualizada, segura, decidida, discreta, um tanto impulsiva e possessiva, que valoriza sua independência (emocional inclusive) e gosta de exercer uma posição de dominância em relação às parceiras. Certas características de sua personalidade lembram o modo de ser masculino (servir de provedora às suas companheiras por exemplo). Sua homossexualidade parece mediada pela vaidade intelectual, subentendida do contexto (“Nasço de um cérebro. O ventre que me fecundou foi receptáculo do amor. E na minha carne brotou a chama mais forte: a ideia. Sou pensamento, essa é a força, o resto é matéria que se move sob meu comando”), e o distanciamento das discussões acadêmicas lhe franqueia reflexões autênticas sobre si mesma como lésbica e sobre a comunidade gay como um todo (“A feminilidade não consiste no fato de a mulher ser uma heterossexual ou uma homossexual. Sou antifeminista. A mulher não precisa sair por aí empunhando estandartes para gritar seus direitos de igualdade junto ao homem. Mais vale a mulher que reconhece e aceita os conceitos estabelecidos pela diferença entre os dois sexos, e individualmente luta pelas suas condições para que estas se tornem mais favoráveis e consegue tudo por esforço próprio”). Das coadjuvantes, sobressai, naturalmente, a figura de Nicoleta, uma lésbica em formação, resolvida quanto à sua homossexualidade, mas suscetível às pressões da juventude - experimentação, autoafirmação e insegurança. A sensível dissonância etária assume o centro temático, não como conflito geracional propriamente dito (não se discute a evolução dos valores por exemplo), mas apresentando os efeitos práticos da influência do tempo sobre a visão de mundo de cada personagem (“Para não me tornar ridícula faço talvez como muitas outras, finjo que também sou de hoje”): a mais jovem, curiosa, a trabalhar com o presente; a mais velha, carente, a incluir no processo as experiências do passado. Resolvida a tensão sexual entre ambas, a realidade termina por se impor (“Às vezes a contingência nos obriga a um golpe decisivo, sem explicações e desculpas, sem esclarecimentos e sem transigir”): a vivência acumulada pela protagonista e sua densa intelectualidade não são suficientes para brecar seus impulsos emocionais, ao contrário, acabam por contaminar seu caráter ao lhe induzir uma confiança excessiva no jogo do amor (“A certeza de estar sendo amada, estupendamente amada, pela mais bela mulher que passara pela minha vida, em plena flor da juventude, dava-me uma segurança que me fazia sentir dona e senhora dela”), imprudência que a leva a colecionar seguidas frustrações (“A verdade era que, por mais que eu quisesse provar o sabor do amor, não conseguia amar ninguém, era tudo sexo, necessidade de companhia, horror à solidão”). Nicoleta Ninfeta bem serveria como romance de formação lésbico, uma vez que enfrenta pontos centrais desse tema: aceitação social, diferentes formas de expressão da homossexualidade e de filosofias de vida, pormenores pertinentes à comunidade gay e o predomínio da realidade frente às ideologias. Vejo que esse comentário caminha para superar o livro em extensão: eis o resultado quando nos damos a enfrentar um pequeno notável. Deixo-vos, pois, com uma última ruminação, uma especulação da protagonista acerca do amor: “Eu observando o amor que tomava conta de tudo. O amor que era uma impressão mística de encontro, de identificação, de saudade pela espera, de ansiedade pela procura, de êxtase pela reciprocidade”.
Calha, vez ou outra, de um artista antever mudanças sociológicas relevantes o suficiente para influenciar a cultura de seu tempo e a das gerações futuras. Ocorreu com Beethoven e Victor Hugo em relação ao fim do Classicismo. Ocorreu com Ticiano em relação ao fim do Renascimento. Ocorreram no passado e ocorrerão no futuro, acompanhando a evolução da espécie, ora para melhor, ora para pior, a depender do ponto de vista. Os tempos atuais têm dificultado a vida dos otimistas: eventuais conquistas pontuais não escondem o constrangimento de estarmos nós, os velhos, em vias de legar um mundo pior, atolado em toda sorte de lixo cultural, ambiental e econômico. Seguimos muito aquém de nossas expectativas, colecionando desperdícios, reciclando equívocos. Este é meu ponto de vista. Acredito que seja também o de Diogo Mainardi. Ao menos é o que se denota de Meus Mortos, livro através do qual Diogo busca expiar seu luto, declarado no próprio título, e o faz associando suas perdas particulares a uma espécie de consternação coletiva - o testemunho de uma geração que se despede da história de forma melancólica. Diogo vive em Veneza, terra de Ticiano, proximidade que lhe permitiu identificar pontos de contato entre a sua biografia e a do pintor, notadamente a visão pessimista do futuro e a reflexão nada piegas sobre a morte. Não há, todavia, espaço ao lúgubre, ao contrário, a narrativa é carregada de humor, um humor tranquilo, domado pela resignação, bem diferente das piadas de velório, nervosas, histéricas. Fazer chacota de nossas desventuras é um recurso terapêutico: não raras vezes os artistas buscam no humor um refúgio face às angústias da vida. Ricardo Araújo Pereira, em Coisa que não edifica nem destrói, diz que a vitória do humor é ser a admissão de uma derrota. Com efeito, o deboche e o escárnio são armas legítimas contra a estupidez triunfante; e neste sentido, Meus Mortos reduz à galhofa a cafonice de uma certa elite, zomba da ventura dos idiotas, desnuda o profano travestido de sagrado, resiste ao autoritarismo da morte e ao desfazimento de nossos dias apelando à vida e à obra de Ticiano, artista cuja longevidade lhe permitiu transicionar das cores do Renascimento ao obscurantismo da Contrarreforma, um dos primeiros a unir o grotesco ao sublime, algo que Victor Hugo viria a defender três séculos mais tarde. O livro de Diogo Mainardi exala melancolia. Razões não lhe devem faltar. Conhecido polemista, suas cáusticas opiniões políticas fizeram sucesso nos diferentes veículos em que trabalhou. Crítico implacável de Lula, festejou como poucos as condenações do Mensalão e os avanços da Operação Lava Jato, inquérito policial que desmontou o maior esquema de corrupção da história mundial, mas que, ao se aproximar de figuras proeminentes, acabou sabotado por um arranjo macabro entre os Poderes; sucedeu-se então uma surra, um verdadeiro linchamento institucional: inúmeros réus, a maioria confessos, tiveram seus processos anulados, agentes que participaram da investigação viram-se perseguidos, leis importantes ao combate à corrupção restaram relativizadas, jurisprudências casuísticas foram forjadas, a sensação de impunidade, e pior, de impotência, tomou conta da sociedade, enfim, uma degradação obstinada que persiste até hoje. Somado tudo isso ao triunfo do bolsonarismo, ao avanço da extrema-direita, à reabilitação do petismo e às aflições pessoais, o cenário tornou-se demasiadamente insalubre: nada mais restou a Diogo senão reconhecer a derrota e buscar resguardo na vida privada. Ocorre que, a par das decepções jornalísticas, Diogo é um talentoso escritor; daí por que seus fãs vibraram com a notícia de que ele estaria a trabalhar em um novo livro; eis que o cidadão lhes aplica então uma pegadinha: em vez de um romance tradicional, ele dá à luz uma fotonovela, o gênero mais vulgar de narrativa, segundo o próprio Diogo reconhece; uma resposta, talvez, à decadência geracional que ele acompanha com olhos cansados, enojados, decadência esta abraçada por uma sociedade anestesiada que, cambaleando entre escrotidões e fanatismos, aceita de bom grado políticos repugnantes, desses que não escondem sua ojeriza por livros que contenham muitas palavras. Quer algo mais afeito a uma geração iliterata do que uma fotonovela? Pois então, os mortos de Diogo Mainardi nos chegam em quadrinhos, ideia inspirada, provavelmente, em seu mentor, Ivan Lessa, que assinou uma coluna de fotonovelas em O Pasquim. Ou, quem sabe, esteja a homenagear Aretino, compadre de Ticiano que, ao lançar poemas luxuriosos no verso de xilogravuras eróticas, deu origem a uma das primeiras fotonovelas de que se tem notícia. Em Meus Mortos, Diogo Mainardi trata de luto e resignação, espólios e legados, cachorros e cavalos, transições e transcendências, detalhes e contextos, cores e obscurantismos, de alta cultura em dias de baixa qualidade, encerrando em si um manifesto a favor de uma verdade nua e crua endereçado a uma geração de analfabetos incapazes sequer de acessar os significados do traseiro que lhes é mostrado.
Um dia hei de provar que a partícula elementar da natureza deu-se à existência no estalo de um beijo cósmico. Como bem se vê, exerço agora a excêntrica profissão de físico teórico; e isso sem gastar um centavo sequer em doutoramentos, sem gastar um minuto sequer em laboratórios de altas energias, em suma, um expert só de ver e ouvir falar, em tudo semelhante aos autodidatas que fertilizam as redes sociais com suas vastas experiências. Ora, se é fato que a ciência não tem dono, nada me impede de, artesanalmente, investigar o mundo natural em busca da cama macia em que a ciência e a poesia costumam, vez ou outra, trocar licenciosidades. Consta nos livros antigos que a estrutura subatômica abrigaria três constituintes básicos, prótons, elétrons e nêutrons: a esses fui devidamente apresentado. Só que pesquisadores deram um jeitinho de espionar melhor o núcleo dos átomos e descobriram que por lá há mais atores. Apreciar os dramas que ocorrem no interior de um átomo não é tarefa fácil: não há, por assim dizer, microscópios que permitam observações diretas; a saída é recorrer a aceleradores de partículas, aparelhos quilométricos que forçam a colisão de prótons em altíssima velocidade para que detectores identifiquem e analisem as forças fundamentais da natureza. Quem, como eu, não está lá muito habituado à linguagem científica, depende de profissionais aptos a traduzi-la aos meios rudimentares de comunicação através dos quais o homem comum costuma elaborar seu pensamento; e como a natureza nem sempre encontra expressão nos idiomas humanos, reconhecidamente limitados, aqueles tradutores, não raras vezes, veem-se obrigados a recorrer a metáforas a fim de tornar compreensíveis os conceitos mais difíceis, notadamente aqueles expostos em linguagem matemática. E aqui mora o perigo: ao borrifar fantasia num campo em si repleto de mistérios, divulgadores da ciência terminam, inadvertidamente, por estimular que gente mal intencionada preencha eventuais frestas com argamassa metafísica. Okay, essa arenga segue meio esfumaçada, mas permitam-me descer um degrau a mais na escuridão e retornar àquele instante que circunda o tempo zero, momento singular no qual a matéria se agrupou com densidade e temperatura imensuráveis para depois, explodindo, espirrar poeira espaço afora. O modelo do universo inflacionário sugere que as partículas fundamentais teriam sido criadas microssegundos após o Big Bang, quando a matéria começava já a arrefecer; daí por que há quem defenda que a partícula primordial da natureza, mediadora dos demais elementos, teria de nascer antes disso, naquilo que, dentro da minha tese, representaria o estalo de um beijo cósmico. O recurso à alegoria, aqui, é inevitável. Imaginem um ponto em que a linha do tempo encontra um hiato e toda matéria se funde sob incomensurável atração gravitacional, culminando por produzir um evento raro, dramático, caótico, reostático, termogênico; então coleções de partículas excitadas e energias infinitas interagiriam entre si no atrito de línguas transmutadas para expulsar, enfim, a partícula-mor da natureza, fator de convergência dos porquês da vida, um perdigoto liberto no justo instante em que lábios, saciados, se descolam. Ocorreria, assim, a origem do Universo. Ou, pelo menos, do meu Universo.
“Se há uma coisa amarga, desoladora, é perceber, ao último momento, que a ideia justa era outra, um outro o movimento”. Eis uma frase extraída de Morrire per delle idee, adaptação de Fabrizio de Andrè de uma chanson de Georges Brassens. Trata-se de um libelo contra o radicalismo, um ataque não às ideologias em si, mas às suas vertentes extremistas, aquelas que se valem da histeria como ferramenta política, que instigam pessoas simples a cometer atos insanos que, não raras vezes, exigem o sacrifício capital. O argumento parte do princípio elementar de que ideologias não existem na natureza: a única forma de vida que age estimulada por ideais é a humana. Daí o assombro do poeta em ver pessoas matarem e morrerem por uma abstração, algo excluído do mundo real, existente única e exclusivamente dentro de nossa cachola: as ideologias. Vejam o caso de Jorge Amado. O escritor baiano dedicou a primeira metade de sua vida ao comunismo, exercendo cargos e funções no partido; teve, em retribuição, sua obra divulgada em países sob o guarda-chuva da União Soviética, recebeu premiações de instituições associadas ao partido, viajou o mundo e travou conhecimento com personalidades relevantes em sua época, quase todas vestidas com o mesmo fardamento ideológico; na outra ponta, viu-se severamente perseguido, preso e impedido de ingressar em países que condenavam o comunismo. E ao fim disso tudo, veio o dissabor de assistir, primeiro, à revelação, quando da abertura de Khrushchov, das atrocidades do stalinismo e, segundo, o desfazimento da União Soviética no período Gorbatchov, ponto final da ilusão comunista. Em seu livro de memórias, Navegação de Cabotagem, Jorge reflete sobre o luto de ter testemunhado a morte desta sua ideologia: “Conversando sobre o mundo que vira pelo avesso, o que falta ainda acontecer? Estraçalha-se o que parecia definitivo, desfazem-se certezas implacáveis, riscam-se do mapa nações, estados, federações, dissolvem-se ideologias, enterram-se teorias ditas científicas, apaga-se o farol que iluminava o mundo. Havíamos de viver para assistir à degradação da União Soviética”. Jorge Amado, que nunca foi radical, tampouco ingênuo, renunciou ao comunismo em 1955. O mesmo fez Ferreira Gullar. Outros, mais aferrados, insistiram até o fim, Saramago inclusive. Pois há um preço em abandonar o radicalismo: Jorge viu-se ameaçado por líderes do partido, gente que buscou ativamente apaga-lo do universo literário. Não conseguiram. Cito o exemplo de Jorge Amado, mas a tese vale para toda e qualquer ideologia, religiosa, política, filosófica, futebolística. Morrire per delle idee não está a defender que um indivíduo deva cumprir toda sua existência sem acreditar em nada: certas abstrações humanas, como honra e dignidade, têm resistido ao tempo, tornando-se verdadeiros memes culturais. O que a canção sugere é o comedimento, o autocontrole e a sobriedade em ações de inspiração ideológica. Há de se considerar que todo campo político tem um dono que enxerga no militante um vassalo dispensável; que a possibilidade de estarmos errados em relação a uma ideia é um princípio científico (ceticismo); que é irracional levarmos a extremos valores que em uma ou duas gerações ou não mais subsistirão, ou serão deveras relativizados; que a maior parte das propostas ideológicas chegam ao eleitorado com obsolescência programada, servindo, quando muito, ao curto prazo; que é injusto tatuarmos em nossa descendência ideais que, para ela, hão de soar anacrônicos. Sigam as ideologias se assim quiserem, é vosso direito; mas, por cortesia, peguem leve, fujam ao delírio, sejam intelectualmente honestos, elegantes e, sobretudo, reservem um bom espaço na mente a delícias cotidianas tão sensíveis e apaixonantes como uma canzonetta italiana.
Bem no início da Internet havia uma série de recomendações éticas, hoje desconstruídas pela deselegância pragmática que dominou o mundo. Uma daquelas recomendações estimulava os utentes a contribuírem para a incipiente rede mundial de computadores através de uma ação nobre: o compartilhamento de conhecimento. Ocorre que nem todos tinham acesso a repositórios online, tampouco habilidade para editar páginas da web mesmo com as facilidades oferecidas por aplicativos assaz intuitivos como o Microsoft FrontPage. Dessa demanda nasceram as ferramentas de weblog, ou simplesmente blog, mecanismos de interface amigável que franqueiam a criação de websites e a publicação de conteúdo online àqueles com pouca ou nenhuma experiência em informática. Uma das áreas que mais proveito tirou dessa evolução foi a literatura. Os blogs democratizaram a produção literária e seus entusiastas passaram a contar com uma comunidade inteira dedicada à escrita, comunidade essa que acabou por revelar autores interessantes. O caso mais emblemático talvez seja o de Ana Maria Gonçalves: de um blog inaugurado no início dos anos dois mil, a autora de Um Defeito de Cor terminou por ocupar, com todos os méritos, uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. O problema dos blogs é que suas barras de rolagem cronológica costumam esmagar os textos no passado. Daí o grande mérito da migração do ambiente virtual ao físico: resgatar produções interessantes que, de outra forma, restariam condenadas ao esquecimento. E aqui merece destaque a expansão (a meu ver tributária da evolução dos blogs) do mercado direcionado à edição de livros de autor, recurso derradeiro a escritores que não conseguem vencer os filtros das editoras. É nesse contexto que surge Des(a)fiando Contos, livro de autoria do colega blogueiro José da Xã reunindo histórias breves pinçadas, em sua maior parte, de seu blog na Internet. O título remete a uma das estratégias da comunidade blogueira a fim de incentivar seus adeptos, qual um exercício de escrita criativa: lançar desafios literários a partir de imagens ou temas e submeter os resultados à apreciação do grupo. Em Des(a)fiando Contos, José da Xã trata com esmero e generosidade a língua portuguesa, isso através de relatos pitorescos do ambiente rural português, sítios nos quais acontecer algo não é exatamente o costume, mas que acabam, aos olhos do autor, treinados naquele universo, por revelar segredos, tramas e mistérios, como o causo do cego que queria legar sua profissão – a cegueira – a seus filhos, e o do tio supostamente solteirão que deixou sua herança a uma família até então desconhecida. Mas não apenas isso. Vemos surgir também temas de diferentes matizes - a viuvez e suas pressões, o viajante sem rumo, a cumplicidade dos verdadeiros amigos, o palacete esquecido à espera de uma história, enfim, excertos da vida de pessoas possíveis que, se não resultaram flores glamorosas, grandes personagens da humanidade, vingam em semear o mundo com incidentes tão miúdos quanto preciosos, tornando-se, exatamente por isso, excelente material criativo. José tem o olhar atento aos pequenos detalhes da vida e a aptidão para traduzi-los em palavras. Soube que, a esse exercício inicial de escrita, seguiram-se outros trabalhos, mas isso é outra história.
Calhou então de enfrentarmos, eu e um colega, a dupla bicampeã estadual de dominó. Bons tempos aqueles de jogos universitários: democráticos, inclusivos, facultavam que, aos atletas das quadras, aqueles do vôlei, do basquete e do futebol, se unissem os atletas das cadeiras, aqueles do truco, do xadrez e do dominó (sem falar dos atletas das canecas, mas estes apareciam só na festa de encerramento). Cientes da dificuldade de vencer o match através das táticas tradicionais, decidimos, os espertalhões, jogar de forma ilógica, forçando uma espécie de caos metodológico baseado em códigos e improvisações. Não se trata de uma artimanha propriamente nova: no futebol americano, por exemplo, há uma manobra desse gênero, chamada Hail Mary, em que o quarterback arremessa a bola do jeito que der em meio à muvuca da Red Zone ... e seja o que Deus quiser. O que se viu foi uma loucurada épica, ninguém entendia nada, nem nossos adversários, nem nossa audiência: aquilo era tudo menos dominó. Favorecidos pelo elemento surpresa, acabamos por ganhar a primeira das três partidas; mas os campeões estaduais, experientes, não demoraram a sacar o nosso estratagema esquizofrênico, e nada mais precisaram fazer senão ignorar as pedras que lançávamos à mesa: focando exclusivamente naquilo que tinham nas mãos, resultaram vencedores do embate. Pois muito bem, dado tudo o que li e vi nos últimos meses, tendo a me filiar àqueles que acreditam que o governo Trump está a patrocinar uma verdadeira estratégia do caos: ciente de sua incompetência no jogo, nada mais faz senão embaralhar as peças e confiar na improvisação (Deus vult); se vencer, autocelebrará sua genialidade e suas bençãos divinas, se perder, transferirá a responsabilidade a um diabo qualquer. Ocorre que seus adversários parecem ter compreendido tal esquizofrenia e passaram a se concentrar naquilo que têm em mãos. O resultado soa-me previsível: ao seja o que Deus quiser costuma seguir-se o salve-se quem puder. Mas posso estar errado. Até porque acontece, vez ou outra, da idiotia vencer.